Vigas mistas de aço e concreto pela ABNT NBR 8800:2024

Vigas mistas de aço e concreto pela NBR 8800:2024 | Lure Engenharia

Lure Engenharia · Estruturas metálicas

Vigas mistas de aço e concreto pela ABNT NBR 8800:2024

Conceitos, sistemas de laje, conectores, momento resistente, flechas e vibração de vigas mistas biapoiadas, com um exemplo de piso em steel deck resolvido do enunciado à última verificação.

Prof. Renato César de Carvalho, engenheiro mecânico · Texto de apoio ao curso de estruturas metálicas da Lure Engenharia e à planilha didática Viga_Mista_NBR8800-2024.xlsx

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  • verificações do Anexo L da NBR 8800:2024, da concretagem à vibração;
  • Memorial de cálculo passo a passo, com os itens da norma;
  • steel deck (MF-50 e MF-75) ou laje maciça, escorada ou não.

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1Introdução

Nos pisos de edifícios com estrutura de aço, a laje de concreto quase nunca é só um elemento que se apoia nas vigas. Quando a laje é ligada ao perfil por conectores de cisalhamento, os dois materiais passam a trabalhar como uma única peça à flexão. O concreto, que resiste bem à compressão, fica na parte de cima. O aço, que resiste bem à tração, fica embaixo. O resultado é a viga mista de aço e concreto: uma viga mais resistente e muito mais rígida do que o perfil sozinho, com praticamente o mesmo consumo de aço.

Este capítulo trata do caso mais comum na prática brasileira: a viga mista biapoiada de alma cheia, que é a situação típica das vigas secundárias de piso. O texto segue a ABNT NBR 8800:2024, cujo Anexo L reúne os requisitos de vigas mistas. Quando a norma brasileira não traz a expressão de algum efeito, usa-se a especificação norte-americana ANSI/AISC 360-16, e isso é indicado no texto. As ações são as da ABNT NBR 6120:2019, e as propriedades da fôrma de aço vêm do catálogo técnico da Metform.

A estrutura do capítulo acompanha a sequência de cálculo de um projeto. Primeiro vêm os conceitos e os sistemas de laje. Depois, o enunciado de um exemplo, um piso de escritórios com laje steel deck, que é resolvido ao longo de todo o texto, etapa por etapa. Cada etapa corresponde a uma etapa do Memorial de cálculo da planilha didática que acompanha o curso, de modo que o leitor pode conferir cada número na planilha.

Ao final do capítulo, o leitor deve ser capaz de:

  • explicar por que aço e concreto ligados por conectores resistem mais e deformam menos;
  • escolher o sistema de laje e conhecer as regras da norma para cada um;
  • montar as cargas pela NBR 6120 e as combinações últimas e de serviço da NBR 8800;
  • calcular a resistência dos conectores, o número necessário e o grau de interação;
  • obter o momento fletor resistente pela distribuição plástica de tensões;
  • verificar flechas, com fluência e retração, tensões em serviço e vibração do piso.
Figura 1 – Roteiro de cálculo de uma viga mista biapoiada, na ordem seguida neste capítulo e no Memorial da planilha
Fluxograma com as etapas de cálculo: dados, materiais, perfil, laje e largura efetiva, esforços, fase de construção, conectores, interação, seção homogeneizada, momento resistente, cortante, flechas e tensões em serviço, vibração e laje

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, Anexo L.

2O que é uma viga mista

2.1Definição e componentes

A NBR 8800:2024 define a viga mista de aço e concreto como o conjunto formado por um componente de aço simétrico em relação ao plano de flexão, que pode ser um perfil I ou uma treliça, e uma laje de concreto situada acima da face superior desse componente. Os dois são ligados mecanicamente por conectores, de modo que funcionem como um conjunto para resistir à flexão, que ocorre no plano que passa pelos centros geométricos das mesas (ABNT, 2024, item L.1.1.1). Quando o componente de aço é um perfil I, a viga é chamada de viga mista de alma cheia. Quando é uma treliça, tem-se uma treliça mista (ABNT, 2024, item L.1.1.2-a). Este capítulo trata apenas das vigas de alma cheia.

A Figura 2 mostra os três componentes em um corte escalonado. Na ponta da frente aparece o perfil sozinho, com a seção I visível. Em seguida aparecem a fôrma de aço, já apoiada sobre a mesa superior, os pinos com cabeça soldados através da fôrma e a tela soldada, posicionada acima das nervuras. No fundo está a laje já concretada. Na face lateral da laje se vê o concreto preenchendo as nervuras da fôrma.

Figura 2 – Componentes de uma viga mista com laje de fôrma de aço incorporada (steel deck)
Perspectiva em corte escalonado de uma viga mista: perfil I de aço, fôrma steel deck com nervuras perpendiculares à viga, pinos com cabeça soldados sobre a alma em cada nervura baixa, tela soldada e laje de concreto preenchendo as nervuras

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.1.1.1 e L.2.6.

Cada componente tem um papel bem definido:

  • Perfil de aço: resiste à tração na parte inferior da seção e, durante a concretagem, sustenta sozinho o peso do concreto fresco, a menos que a viga seja escorada;
  • Laje de concreto: forma a mesa comprimida da seção mista; além de piso, passa a ser parte da viga;
  • Conectores de cisalhamento: impedem que a laje escorregue sobre o perfil e transmitem a força de cisalhamento longitudinal entre os dois materiais.

2.2Por que a viga mista é tão eficiente

Imagine uma laje simplesmente apoiada sobre uma viga de aço, sem nenhuma ligação. Sob carga, cada peça flete em torno da sua própria linha neutra: a face inferior da laje se alonga e a face superior do perfil se encurta. As duas superfícies em contato deslizam uma em relação à outra. A capacidade do conjunto é, aproximadamente, a soma das capacidades das duas peças isoladas, e a laje, muito delgada, contribui pouco.

Com conectores, esse deslizamento é impedido. A seção passa a ter uma linha neutra única, que sobe para perto da laje. O concreto fica quase todo comprimido e o aço, quase todo tracionado. Cada material trabalha onde é mais eficiente, e o braço de alavanca entre a resultante de compressão (na laje) e a de tração (no perfil) cresce muito.

O exemplo deste capítulo, apresentado na seção 4, mostra o tamanho do ganho. O perfil W460x52,0 sozinho, travado lateralmente, tem momento resistente de cálculo de 343,7 kN·m. A mesma viga, trabalhando como viga mista com 16 pinos por meio vão, chega a 607,7 kN·m: um ganho de 77%. O momento de inércia passa de 21 370 cm⁴ para 61 992 cm⁴, quase três vezes mais rígida. E isso com apenas 54% da interação completa, como será visto na seção 11. O custo do ganho são os 32 conectores e a mão de obra de soldagem.

Na prática, a viga mista permite perfis mais leves e mais baixos, flechas menores e pisos menos sensíveis à vibração.

2.3Interação completa, parcial e escorregamento

A força que os conectores precisam transmitir depende do que a seção consegue mobilizar. Se os conectores conseguem transmitir toda a força que a laje é capaz de receber, ou toda a força que o perfil é capaz de desenvolver, a interação é completa. A norma formaliza isso: na região de momento positivo, a interação é completa quando a resistência de cálculo dos conectores situados nessa região é igual ou superior à resistência de cálculo do componente de aço à tração ou da laje de concreto à compressão, o que for menor. Caso contrário, a interação é parcial (ABNT, 2024, item L.1.1.2-f).

A Figura 3 compara os três comportamentos. Na parte de cima está a viga fletida, com o escorregamento s entre laje e perfil nas extremidades. Na parte de baixo estão a seção transversal e o diagrama de deformações.

Figura 3 – Viga sem interação, com interação parcial e com interação completa: escorregamento nas extremidades e diagramas de deformação
Três casos lado a lado. Em cima, a viga fletida com o escorregamento s nas extremidades: grande sem conectores, pequeno com poucos conectores e nulo com interação completa. Embaixo, a seção e o diagrama de deformações: duas linhas neutras, salto de deformação na interface e linha neutra única

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.1.1.2-f e L.2.3.1.1.2.

  • (a) Sem interação: não há conectores. Laje e perfil deslizam livremente, e o escorregamento nas extremidades é grande. Há duas linhas neutras, uma em cada material, e o momento total é a soma dos momentos de cada peça, M = Ma + Mc.
  • (b) Interação parcial: os conectores existem, mas não conseguem transmitir toda a força necessária (ΣQRd < Fhd). O escorregamento diminui, as duas linhas neutras se aproximam e sobra um salto de deformação na interface. A resistência e a rigidez ficam entre os dois extremos.
  • (c) Interação completa: não há escorregamento e a deformação é linear em toda a altura da seção. Há uma só linha neutra, próxima da laje.

Por que aceitar a interação parcial? Porque, muitas vezes, a resistência à flexão já sobra com menos conectores, e economizar conectores reduz custo. A norma, porém, impõe um grau de interação mínimo para que o escorregamento não comprometa a capacidade de deformação plástica da ligação. Esse limite é tratado na seção 11.

2.4Vinculação da viga

As vigas mistas de alma cheia podem ser biapoiadas, contínuas ou semicontínuas (ABNT, 2024, item L.1.1.2-b). Nas biapoiadas, as ligações nos apoios são consideradas rótulas e só existe momento positivo, com a laje comprimida em todo o vão. Nas contínuas, o perfil e a armadura da laje têm continuidade total nos apoios internos, e surge momento negativo, com a laje tracionada sobre os apoios (ABNT, 2024, itens L.2.4 e L.2.5). Nas semicontínuas, as ligações nos apoios são ligações mistas de resistência parcial, tratadas no Anexo O da norma. Este capítulo trata apenas das vigas biapoiadas.

3Sistemas de laje

3.1Os quatro sistemas admitidos pela norma

A NBR 8800:2024 admite quatro tipos de laje em vigas mistas: a laje maciça moldada no local, a laje mista de aço e concreto, a laje com pré-laje de concreto pré-moldada e a laje alveolar pré-moldada (ABNT, 2024, item L.1.1.1). A laje mista, com fôrma de aço incorporada, é dimensionada pelo Anexo N da própria NBR 8800. As demais são dimensionadas pela ABNT NBR 6118 e pelas normas específicas de cada sistema, como a ABNT NBR 14859 para pré-lajes e lajes treliçadas e a ABNT NBR 14861 para lajes alveolares, atendendo também aos requisitos do Anexo L. Esses quatro sistemas são também os mais usados em edifícios de estrutura de aço no Brasil.

Figura 4 – Os quatro sistemas de laje previstos para vigas mistas
Quatro blocos em perspectiva, cada um com um trecho de perfil I sob a laje e o pino com cabeça cortado na face frontal: laje maciça com armaduras; steel deck com a onda da fôrma na face lateral; pré-laje com capa e treliças; laje alveolar com capa, alvéolos e junta concretada sobre o perfil

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.1.1.1, L.2.6, L.2.7 e L.2.8.

Em cada bloco da Figura 4, a face da esquerda é o corte transversal da viga, com o pino sobre a alma do perfil. A face da direita é paralela à viga e mostra o que diferencia um sistema do outro: a onda da fôrma, no steel deck, com as nervuras perpendiculares à viga; as treliças, na pré-laje; e os alvéolos, na laje alveolar. Na pré-laje e na laje alveolar, as peças pré-moldadas terminam sobre a mesa do perfil, e o espaço entre elas é concretado junto com a capa, envolvendo o conector. A capa é a camada de concreto moldada no local por cima dos elementos pré-moldados ou da fôrma de aço: ela solidariza as peças em um piso contínuo e forma a mesa comprimida da viga mista. No steel deck, chama-se de capa o concreto acima do topo das nervuras.

O steel deck domina em edifícios comerciais e garagens, porque dispensa escoramento nos vãos usuais e a própria fôrma serve de plataforma de trabalho. A laje alveolar aparece quando os vãos da laje são grandes. A pré-laje e a laje treliçada são comuns em obras feitas por construtoras habituadas ao concreto. A planilha que acompanha este capítulo dimensiona a laje maciça e o steel deck.

3.2Vantagens e cuidados de cada sistema

Tabela 1 – Vantagens, cuidados normativos e tipo de conector de cada sistema de laje

SistemaVantagensCuidados (item da NBR 8800:2024)Conector
Laje maciçaNão depende de fornecedor; espessura livre; aceita perfil UFôrma e escoramento da laje; perfil sem contenção lateral na concretagem (L.2.3.2-a); U exige face inferior plana (L.4.2.2.1)Pino ou perfil U
Steel deckDispensa escoramento nos vãos usuais; a fôrma é plataforma de trabalho e armadura positivahF ≤ 75 mm, pino com Ø ≤ 19 mm e demais limites de L.2.6.1; concreto das nervuras perpendiculares desprezado (L.2.6.2); Rg e Rp reduzem QRd (L.4.2.1)Pino com cabeça
Pré-laje e capaIndustrializada; menos fôrmaPré-laje com até 75 mm; largura da mesa do perfil de pelo menos a espessura da pré-laje + Ø + 40 mm, ou 140 mm; pino com 20 mm de cobrimento lateral (L.2.7)Pino com cabeça
Alveolar e capaGrandes vãos de laje; rapidez; pouco concretoAltura até 265 mm, capa de pelo menos 50 mm, apoio mínimo, garganta mínima, alvéolos preenchidos em 650 mm e armaduras transversais (L.2.8); Rg = 0,90 (L.4.2.1.2)Pino Ø19 × 125 mm

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, itens indicados, e no catálogo Metform.

Em resumo: o steel deck é a escolha natural quando o prazo e a eliminação do escoramento pesam na decisão. A laje maciça é preferível quando a laje tem geometria irregular, muitas aberturas ou cargas altas, situação em que o conector em perfil U, mais resistente, também se torna atraente.

4O exemplo do capítulo

Todo o restante do capítulo é aplicado a um único exemplo, apresentado aqui por completo antes de qualquer conta. Os números são os mesmos que aparecem na planilha didática quando ela é aberta com os dados de exemplo.

4.1Enunciado

Enunciado

Um edifício de escritórios tem pisos em estrutura de aço com laje mista do tipo steel deck. As vigas secundárias V1 apoiam-se nas vigas principais VP por meio de ligações flexíveis, vencem um vão de 9,00 m e estão espaçadas a cada 2,80 m. A fôrma Metform MF-75, com chapa de 0,80 mm, apoia-se sobre as V1 com as nervuras perpendiculares a elas, e cada chapa é contínua sobre três vãos. A laje tem altura total de 140 mm e é feita com concreto C30 e brita de granito. O piso tem 20 m de largura na direção das vigas principais.

A V1 é um perfil laminado W460x52,0 em aço ASTM A572 Grau 50. Os conectores são pinos com cabeça Ø19 × 125 mm, com aço de resistência à ruptura de 415 MPa, um em cada nervura baixa da fôrma, soldados através dela. A construção é não escorada, e o perfil é fabricado com contraflecha de 15 mm.

Sobre a laje atuam revestimento de piso com 5 cm de espessura, forro de gesso acartonado e dutos de ar-condicionado, além da carga de uso de escritório com divisórias móveis.

Pede-se: verificar uma V1 interna como viga mista biapoiada pela ABNT NBR 8800:2024.

A Figura 5 mostra a planta de um trecho do piso. As vigas principais VP ficam nas linhas de pilares, a cada 9,00 m. As V1 vencem esses 9,00 m e se repetem a cada 2,80 m: há três vãos de laje de 2,80 m em cada módulo de 8,40 m entre pilares. Como as ligações das V1 nas VP são flexíveis, feitas com cantoneiras ou chapa de alma, a V1 é biapoiada e só tem momento positivo.

Figura 5 – Planta de um trecho do piso do exemplo, com a viga V1 em estudo e a sua faixa de influência
Planta de um trecho do piso: vigas principais VP nas linhas de pilares, a cada 9,00 m; vigas secundárias V1 entre elas, a cada 2,80 m; a V1 em estudo destacada com sua faixa de influência de 2,80 m; nervuras da fôrma paralelas às vigas principais

Fonte: elaborado pelo autor.

A fôrma de aço vence os 2,80 m entre as V1, como uma laje unidirecional apoiada nelas, isto é, uma laje que transmite a carga em uma só direção, como se fosse uma sequência de vigas largas e baixas, lado a lado, apoiadas nas V1. Isso acontece porque a fôrma só tem rigidez na direção das nervuras e porque o vão nessa direção, 2,80 m, é muito menor que o da outra, 9,00 m. Por isso as nervuras correm perpendicularmente às V1. A V1 em estudo é interna: tem laje dos dois lados, e a faixa de piso que ela recebe é a metade do vão da laje para cada lado, 1,40 + 1,40 = 2,80 m. A largura total do piso, 20 m, entra apenas na verificação de vibração, porque limita a largura de piso que participa do modo de vibrar.

4.2Seção, materiais e conectores

Figura 6 – Seção transversal da V1 e corte ao longo da viga, com a onda da fôrma e a posição dos pinos
(a) Seção transversal da V1: perfil W460x52,0 com altura de 450 mm, mesa de 152 mm, alma de 7,6 mm e mesas de 10,8 mm; laje de 140 mm sobre a fôrma MF-75, com 75 mm de nervura e 65 mm de capa; pino de 19 por 125 mm sobre a alma. (b) Corte ao longo da viga: onda da fôrma com passo de 274 mm e um pino em cada nervura baixa

Fonte: elaborado pelo autor, com dados dos catálogos Gerdau e Metform.

O corte (a) da Figura 6 passa por uma nervura baixa da fôrma, onde a chapa encosta na mesa do perfil e o pino é soldado. A linha tracejada indica o topo das nervuras altas, que ficam fora do plano do corte. O corte (b) mostra por que o espaçamento dos pinos é igual ao passo da onda, 274 mm: só há onde soldá-los nas nervuras baixas.

Tabela 2 – Dados do exemplo

ElementoDados
Perfil W460x52,0d = 450 mm; bf = 152 mm; tf = 10,8 mm; tw = 7,6 mm; d′ = 404 mm; Ix = 21 370 cm⁴; Wx = 949,8 cm³; Zx = 1 095,9 cm³; massa 52 kg/m
Aço do perfilASTM A572 Grau 50: fy = 345 MPa; fu = 450 MPa
FôrmaMetform MF-75, chapa de 0,80 mm (9,37 kg/m²), nervuras perpendiculares à viga, contínua sobre três vãos
Lajeh = 140 mm, com hF = 75 mm de nervura e tc = 65 mm de concreto acima da fôrma; consumo de 0,1025 m³/m²
ConcretoC30 (fck = 30 MPa), densidade normal, brita de granito
ConectoresPino com cabeça Ø19 × 125 mm, fucs = 415 MPa, um por nervura baixa (s = 274 mm), centrado na nervura (emh = 59 mm), soldado através da fôrma
ConstruçãoNão escorada; sobrecarga de construção de 1,0 kN/m²; contraflecha δ0 = 15 mm
VibraçãoEscritório convencional, com forro e instalações suspensos, sem divisórias de piso a teto; piso com 20 m de largura

Fonte: catálogo de perfis Gerdau; catálogo Metform; planilha didática, aba Dados.

Conceitos de concreto armado · fck, classe C30 e densidade normal

A resistência característica à compressão do concreto, fck, é obtida no ensaio de compressão de corpos de prova cilíndricos aos 28 dias de idade. Como a resistência do concreto varia bastante de um lote para outro, o fck não é a média dos ensaios: é o valor que tem 95% de probabilidade de ser superado, o chamado quantil de 5% (ABNT NBR 6118). O papel dele no projeto é o mesmo do fy do aço: é o valor de resistência especificado, a partir do qual se calcula a resistência de cálculo.

A classe do concreto é o seu fck em megapascals precedido da letra C: o concreto C30 tem fck = 30 MPa. É assim que o concreto é especificado no projeto e pedido à concreteira.

O concreto de densidade normal é o concreto comum, feito com areia e brita naturais, com massa específica seca entre 2 000 kg/m³ e 2 800 kg/m³ (ABNT NBR 6118). Os concretos leves, feitos com agregados como argila expandida, têm módulo de elasticidade e resistência ao cisalhamento diferentes e exigem adaptações nas expressões da NBR 8800 (ABNT, 2024, item 4.6.3.1).

4.3Fases de carregamento e o que se pede

Como a construção é não escorada, a viga passa por duas fases, ilustradas na Figura 7. Na fase 1, a concretagem, o perfil isolado recebe o próprio peso, a fôrma, o concreto fresco e a sobrecarga de construção. A fôrma, ligada ao perfil pelos pinos, trava a mesa superior lateralmente nessa fase. Na fase 2, depois que o concreto atinge 75% de fck, a viga passa a ser mista e recebe as cargas aplicadas depois da cura: revestimento, forro, dutos, uso e divisórias. A contraflecha de fabricação, de 15 mm, é descontada da flecha total; a seção 14.2 explica como ela é feita.

Conceitos de concreto armado · concretagem, escoramento e cura

Em edifícios, o concreto quase sempre é usinado, isto é, produzido em uma central dosadora (a concreteira) e levado à obra em caminhão betoneira, e é bombeado, lançado sobre a laje por uma tubulação ligada a uma bomba. O concreto recém-lançado, ainda mole, é chamado de concreto fresco: nessa fase ele é apenas peso, sem nenhuma resistência.

Escorar é apoiar provisoriamente a laje ou a viga em escoras, pontaletes metálicos ou de madeira apoiados no pavimento de baixo, que sustentam o peso do concreto fresco até ele ganhar resistência. Escorar a viga significa colocar escoras sob o perfil, para que ele praticamente não receba carga na concretagem. Escorar a laje significa colocar escoras sob a fôrma, o que é necessário quando o vão da laje passa do vão máximo sem escoramento do catálogo.

A cura é o período depois da concretagem em que o concreto endurece, por causa da reação química entre o cimento e a água. A resistência cresce rapidamente nos primeiros dias e mais devagar depois; por convenção, o fck se refere à idade de 28 dias. A palavra também designa os cuidados para manter o concreto úmido nesse início, que reduzem a fissuração. A NBR 8800 considera que a seção mista passa a existir quando o concreto atinge 75% do fck: antes disso, todo o peso fica no perfil ou nas escoras (ABNT, 2024, itens L.1.1.2-g e L.2.3.2-a). Com os cimentos usuais, isso costuma ocorrer entre a primeira e a segunda semana, mas o prazo depende do cimento e do clima, e deve ser confirmado por ensaio antes de retirar escoramentos.

Figura 7 – Esquema estático da V1 nas duas fases e contraflecha de fabricação
Esquema estático da V1 biapoiada com 9,00 m de vão. Fase 1, concretagem: o perfil sozinho recebe o concreto fresco, a fôrma, o próprio peso e 1,0 kN/m² de sobrecarga de construção. Fase 2, em serviço: a viga mista recebe revestimento, forro, dutos, uso e divisórias. Contraflecha de fabricação de 15 mm

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.2.3.2 e N.4.1.3.

As verificações pedidas, na ordem em que aparecem neste capítulo, são:

  1. perfil isolado na concretagem (ABNT, 2024, item L.2.3.2-a);
  2. resistência dos conectores e grau de interação mínimo (itens L.4 e L.2.3.1.1.2);
  3. momento fletor resistente da viga mista (item L.2.3.1);
  4. força cortante (item L.3.1);
  5. flechas, com limite de L/350 (Anexo B);
  6. tensão em serviço na mesa inferior (item L.2.3.2-b);
  7. vibração do piso pelo caminhar de pessoas (Anexo I);
  8. a própria laje, pelo catálogo do fabricante.

5Classificação da viga: o método de cálculo

Antes de calcular a resistência, é preciso saber qual método se aplica. Nas vigas biapoiadas, quem decide é a esbeltez da alma do perfil, h/tw. Se a alma é compacta, a seção mista pode plastificar por completo antes de a alma flambar localmente, e o momento resistente é calculado pela distribuição plástica de tensões. Se a alma é semicompacta, a flambagem local pode ocorrer antes da plastificação, e a verificação é feita por tensões elásticas. Almas mais esbeltas que isso não são admitidas em vigas mistas biapoiadas (ABNT, 2024, itens L.1.1.2-c e L.1.1.2-d).

Tabela 3 – Classificação da alma em vigas mistas biapoiadas

Esbeltez da almaClasseMomento resistente
h/tw ≤ 3,76·√(E/fy)CompactaPlástico (L.2.3.1.1)
3,76·√(E/fy) < h/tw ≤ 5,70·√(E/fy)SemicompactaElástico, por tensões (L.2.3.1.2)
h/tw > 5,70·√(E/fy)EsbeltaNão admitida em viga mista biapoiada

Fonte: ABNT NBR 8800:2024, L.1.1.2-c e L.1.1.2-d.

Atenção à definição de h. Nos perfis soldados, é a distância entre as faces internas das mesas. Nos perfis laminados, é essa distância menos os dois raios de concordância entre mesa e alma, o valor indicado como d′ nos catálogos. Todos os perfis W da tabela Gerdau têm alma compacta para fy até 345 MPa: o maior valor de h/tw é 55,8, do W410x38,8, contra o limite de 90,5 (seção 12.4). A especificação norte-americana faz a mesma observação para os perfis laminados W (AISC, 2016, User Note da seção I3.2a). Já os perfis soldados altos e de alma fina, como o VS 1000x140, podem cair na faixa semicompacta.

Exemplo · classificação da alma

h/tw = d′/tw = 404/7,6 = 53,2

3,76·√(E/fy) = 3,76·√(200 000/345) = 3,76 × 24,08 = 90,5

53,2 ≤ 90,5: alma compacta. O momento resistente será calculado pela distribuição plástica de tensões.

6Materiais

6.1Aço estrutural

Para os aços estruturais, a NBR 8800:2024 adota módulo de elasticidade E = 200 000 MPa, coeficiente de Poisson 0,3, módulo de elasticidade transversal G = 77 000 MPa e massa específica de 7 850 kg/m³ (ABNT, 2024, item 4.6.2.9). A resistência de cálculo ao escoamento é obtida dividindo a resistência característica pelo coeficiente de ponderação γa1, igual a 1,10 nas combinações normais e de construção (ABNT, 2024, Tabela 3).

fyd = fy / γa1(6.1)

Para os conectores, a norma usa um coeficiente próprio, γcs = 1,25 nas combinações normais, especiais e de construção (ABNT, 2024, item L.4.2.1.1).

6.2Concreto

A norma trata de concretos de densidade normal com fck entre 20 MPa e 50 MPa (ABNT, 2024, item 4.6.3.1). O módulo de elasticidade tangente inicial depende do tipo de agregado graúdo, e o módulo secante, usado nas análises elásticas e nos estados-limite de serviço, é 85% dele:

Eci = αag · 5600 · √fck   ;   Ec = 0,85 · Eci   (MPa)(6.2)

αag = 1,2 para basalto e diabásio; 1,0 para granito e gnaisse; 0,9 para calcário; 0,7 para arenito.

Conceitos de concreto armado · módulo tangente inicial e módulo secante

No aço, a curva tensão-deformação é uma reta até o escoamento, e o módulo de elasticidade é um só. No concreto, a curva é curva desde o início: a inclinação diminui à medida que a tensão cresce. Por isso se definem dois módulos. O módulo tangente inicial, Eci, é a inclinação da tangente à curva na origem. O módulo secante, Ec, é a inclinação da reta que liga a origem a um ponto da curva correspondente a uma tensão de serviço, da ordem de 40% da resistência. É o mesmo conceito de módulo secante usado para materiais não lineares, como os polímeros.

Como nas análises elásticas e nos estados-limite de serviço as tensões no concreto ficam nessa faixa, a norma manda usar o módulo secante, e fixa Ec = 0,85·Eci (ABNT, 2024, item 4.6.3.1).

Na norma, esse fator do agregado é representado por αe, o "parâmetro relacionado à rocha matriz da brita empregada" (ABNT, 2024, item 3.3). Neste texto e na planilha ele é chamado de αag, para não ser confundido com a razão modular αE = E/Ec, usada na homogeneização da seção (seção 14). A edição de 2008 usava Ec = 4 760·√fck, sem considerar o agregado.

Que valor de αag adotar quando a brita não é conhecida

No início do projeto, o calculista raramente sabe de qual pedreira virá a brita. A NBR 8800 e a NBR 6118 não indicam um valor padrão para esse caso: dão apenas os valores por tipo de rocha. Algumas observações ajudam a escolher.

  • O tipo de laje não muda o fator. O valor de αag depende só da brita do concreto, e não de a laje ser steel deck, maciça ou pré-laje. No steel deck, o concreto é quase sempre usinado e bombeado, normalmente com brita 0 ou 1, e a rocha é a que a concreteira da região usa.
  • Granito e gnaisse são a referência. Com αag = 1,0, a expressão (6.2) se reduz à forma clássica Eci = 5600·√fck. Essas rochas são a origem mais comum da brita nas grandes cidades do Sudeste e do litoral brasileiro.
  • O basalto é comum em parte do país. Na região da bacia do Paraná, que inclui boa parte do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e do oeste de São Paulo, a brita costuma ser de basalto. Nesses casos αag = 1,2, e adotar 1,0 subestima o módulo, o que fica a favor da segurança nas flechas.
  • Calcário e arenito pedem cuidado. Onde a brita pode ser de calcário (0,9) ou, mais raramente, de arenito (0,7), adotar 1,0 superestima o módulo e fica contra a segurança nas flechas.

Recomendação deste texto

Na falta de informação sobre a brita, adote αag = 1,0 (granito e gnaisse), que é também o valor padrão da planilha. Se a obra fica em região onde a brita de calcário é comum, use 0,9 ou consulte a concreteira antes de fechar o projeto. Em qualquer caso, registre nas notas do projeto o módulo de elasticidade adotado (no exemplo, Eci = 30 672 MPa) e peça à concreteira que informe a origem da brita. Quando necessário, o módulo pode ser confirmado por ensaio, conforme a ABNT NBR 8522.

Como referência do efeito: para fck = 30 MPa, trocar αag = 1,0 por 0,9 reduz Ec de 26 072 MPa para 23 465 MPa (10%). Isso aumenta a razão modular αE de 7,67 para 8,52 e reduz um pouco a rigidez da seção mista. Na verificação de vibração o fator não pesa, porque o Anexo I usa um módulo dinâmico fixo de 38 GPa (ABNT, 2024, item I.1.7).

A resistência de cálculo do concreto é fcd = fck/γc, com γc = 1,40 nas combinações normais e 1,20 nas de construção (ABNT, 2024, Tabela 3). A edição 2024 introduziu um coeficiente de fragilidade para concretos de alta resistência, que reduz o bloco de compressão quando fck passa de 40 MPa (ABNT, 2024, item L.1.3.4):

ηc = (40 / fck)1/3 ≤ 1,0   (fck em MPa)(6.3)

O bloco de tensões de compressão no concreto passa a valer 0,85·ηc·fcd. O coeficiente 0,85 representa principalmente os efeitos de carga de longa duração sobre a resistência do concreto, conhecidos como efeito Rüsch, em referência ao pesquisador alemão Hubert Rüsch, que os estudou. O fck é medido em um ensaio rápido, de poucos minutos, mas na estrutura a carga fica aplicada por anos, e o concreto sob carga mantida rompe com uma tensão menor que a do ensaio rápido. O coeficiente 0,85 combina essa redução com o ganho de resistência que o concreto ainda tem depois dos 28 dias e com a diferença entre o corpo de prova e a peça real.

Exemplo · propriedades de cálculo

fyd = 345/1,10 = 313,6 MPa = 31,36 kN/cm²

Eci = 1,0 × 5600 × √30 = 30 672 MPa → Ec = 0,85 × 30 672 = 26 072 MPa

αE = E/Ec = 200 000/26 072 = 7,67

fcd = 30/1,40 = 21,43 MPa = 2,143 kN/cm²; ηc = (40/30)1/3 = 1,10 → ηc = 1,0

7Ações e combinações

7.1Cargas do piso pela NBR 6120

A ABNT NBR 6120:2019 fornece os pesos específicos dos materiais, os pesos de componentes construtivos e as cargas de uso. Em uma laje steel deck, o peso do concreto é obtido do consumo indicado no catálogo do fabricante, multiplicado pelo peso específico do concreto armado, 25 kN/m³ (ABNT, 2019, Tabela 1). Para a MF-75 com laje de 140 mm, o consumo é de 0,1025 m³/m², o que dá 0,1025 × 25 = 2,56 kN/m². A chapa de 0,80 mm pesa 9,37 kg/m², ou 0,09 kN/m² (METFORM, s.d.).

Na construção não escorada, não basta somar todas as cargas: é preciso saber quando cada uma passa a atuar, porque isso define qual seção a resiste (seção 9). Por isso as cargas do exemplo são separadas em três grupos:

  • g1, permanentes antes da cura: o peso da própria laje (concreto fresco e fôrma), que é lançado quando a viga ainda é só o perfil de aço;
  • g2, permanentes depois da cura: revestimento, forro e dutos, instalados quando a laje já endureceu e a viga já é mista;
  • q, variáveis: o uso do piso e as divisórias móveis, que também atuam sobre a viga mista.

Tabela 4 – Cargas do piso do exemplo, separadas pelo momento em que passam a atuar

AçãoOrigemkN/m²
Grupo g1 · permanentes antes da cura (atuam no perfil isolado)
Concreto da laje (0,1025 m³/m² × 25 kN/m³)NBR 6120, Tab. 1; Metform2,56
Fôrma MF-75, chapa de 0,80 mmCatálogo Metform0,09
Subtotal g1 = 2,56 + 0,092,65
Grupo g2 · permanentes depois da cura (atuam na viga mista)
Revestimento de piso com 5 cmNBR 6120, Tab. 41,00
Forro de gesso acartonado com estruturaNBR 6120, Tab. 80,25
Dutos de ar-condicionado com isolamentoNBR 6120, Tab. 80,30
Subtotal g2 = 1,00 + 0,25 + 0,301,55
Grupo q · variáveis (atuam na viga mista)
Uso: escritórios, salas de uso geralNBR 6120, Tab. 102,50
Divisórias móveis de 1 a 2 kN/mNBR 6120, 6.2 e Tab. 110,75
Subtotal q = 2,50 + 0,753,25

Fonte: ABNT NBR 6120:2019, Tabelas 1, 4, 8, 10 e 11 e item 6.2; catálogo Metform.

O peso próprio do perfil, 52 kg/m ou 0,51 kN/m, também pertence ao grupo g1. Ele não aparece na tabela porque já é uma carga por metro de viga, e não por metro quadrado de piso: é somado depois, na seção 7.4, quando as cargas da tabela são multiplicadas pela faixa de influência de 2,80 m.

As divisórias sem posição definida em projeto são consideradas como carga uniformemente distribuída, função do peso por metro linear da parede: 0,5 kN/m² até 1 kN/m; 0,75 kN/m² de 1 a 2 kN/m; 1,0 kN/m² de 2 a 3 kN/m. Paredes mais pesadas que 3 kN/m entram como carga permanente na posição de projeto (ABNT, 2019, item 6.2 e Tabela 11). Uma divisória de gesso acartonado de 0,5 kN/m² com 2,8 m de altura pesa 1,4 kN/m, daí os 0,75 kN/m² do exemplo. A carga de divisórias pode ser dispensada quando a carga de uso já é de pelo menos 4,0 kN/m², exceto para paredes acima de 3,0 kN/m. Para comparação, a mesma Tabela 10 indica 1,5 kN/m² para dormitórios residenciais e 4,0 kN/m² para lojas e shopping centers.

7.2Coeficientes de ponderação e fatores de combinação

A NBR 8800:2024 permite ponderar as ações permanentes separadamente, por tipo, ou agrupadas. A Tabela 5 reúne os valores usados no exemplo, para ações desfavoráveis. Quando a ação permanente é favorável, usa-se 1,00.

Tabela 5 – Coeficientes de ponderação γf das ações desfavoráveis

AçãoNormalConstrução
Peso próprio de estrutura metálica1,251,15
Estrutura moldada no local1,351,25
Elementos construtivos em geral1,501,40
Permanentes agrupadas1,351,25
Ações variáveis1,501,30

Fonte: ABNT NBR 8800:2024, Tabela 1 (item 4.8).

Tabela 6 – Fatores de combinação ψ0 e de redução ψ1 e ψ2 das cargas de uso

Localψ0ψ1ψ2
Residencial, de acesso restrito0,50,40,3
Industrial, comercial, escritórios, acesso público0,70,60,4
Bibliotecas, arquivos, depósitos, oficinas, garagens0,80,70,6

Fonte: ABNT NBR 8800:2024, Tabela 2.

7.3Combinações de ações

Cada verificação usa a sua combinação. Nos estados-limite últimos, a combinação normal (ABNT, 2024, item 4.8.7.2.1) é:

Fd = Σ γg·FG,k + γq·FQ1,k + Σ γq·ψ0·FQj,k(7.1)

Ela é usada na flexão, no cortante, nos conectores e no grau de interação. A combinação última de construção (item 4.8.7.2.3) tem a mesma forma, com os coeficientes da coluna de construção, e é usada na verificação do perfil isolado durante a concretagem. Para essa fase, a sobrecarga de construção é a mais desfavorável entre 1,0 kN/m² uniforme e 2,2 kN/m linear (ABNT, 2024, item N.4.1.3); o exemplo usa 1,0 kN/m².

Nos estados-limite de serviço há três combinações (item 4.8.7.3). A quase permanente, ΣFG,k + Σψ2·FQ,k, representa os efeitos de longa duração e é usada para a flecha máxima ligada ao aspecto da estrutura (ABNT, 2024, item B.2.4). A frequente, ΣFG,k + ψ1·FQ1,k + Σψ2·FQj,k, trata de estados reversíveis e é usada na vibração, com ψ1 = ψ2 = 0,1 (item I.1.5). A rara, ΣFG,k + FQ1,k + Σψ1·FQj,k, trata de estados irreversíveis, como danos a paredes e forros, e é usada também na tensão em serviço da viga não escorada (item L.2.3.2-b).

7.4Esforços solicitantes do exemplo

Com a faixa de influência de 2,80 m, as cargas por área viram cargas por metro de viga. Na combinação normal, as permanentes são ponderadas por tipo: o concreto moldado no local com 1,35; a fôrma e o perfil, que são estrutura metálica, com 1,25; revestimento, forro e dutos, elementos construtivos em geral, com 1,50.

Exemplo · cargas e esforços

Concreto: 2,56 × 2,80 = 7,18 kN/m; fôrma e perfil: 0,09 × 2,80 + 0,51 = 0,77 kN/m

g1 (antes da cura) = 7,18 + 0,77 = 7,94 kN/m; g2 = 1,55 × 2,80 = 4,34 kN/m; q = 3,25 × 2,80 = 9,10 kN/m

qd = 1,35 × 7,18 + 1,25 × 0,77 + 1,50 × 4,34 + 1,50 × 9,10 = 30,81 kN/m

MSd = qd·L²/8 = 30,81 × 9,00²/8 = 311,9 kN·m;  VSd = qd·L/2 = 30,81 × 9,00/2 = 138,6 kN

Construção: qd,c = 1,25 × 7,18 + 1,15 × 0,77 + 1,30 × (1,0 × 2,80) = 13,49 kN/m

MSd,c = 13,49 × 9,00²/8 = 136,6 kN·m (perfil isolado)

8A laje com fôrma de aço

8.1As fôrmas Metform MF-50 e MF-75

A fôrma de aço de uma laje mista tem dupla função. Na concretagem, é a fôrma: suporta o concreto fresco e serve de plataforma de trabalho. Em serviço, é a armadura positiva da laje, graças às mossas estampadas nas almas, que garantem a aderência mecânica entre a chapa e o concreto. As nervuras largas permitem soldar os pinos através da chapa e calcular as vigas como mistas (METFORM, s.d.).

Conceitos de concreto armado · armadura positiva

O concreto resiste bem à compressão, mas muito pouco à tração: a sua resistência à tração é da ordem de 10% da resistência à compressão, e ele fissura com facilidade quando é tracionado. Por isso, em toda região de um elemento de concreto que fica tracionada, colocam-se barras de aço, chamadas de armadura. Depois que o concreto fissura, é a armadura que resiste à tração. É esse conjunto que se chama de concreto armado.

Na convenção usual de estruturas, o momento positivo é o que traciona a face inferior da peça: é o caso do meio do vão de uma laje ou viga apoiada, que fica com a "barriga" para baixo. A armadura positiva é, portanto, a armadura colocada perto da face de baixo da laje, para resistir à tração causada pelo momento positivo. O momento negativo, que aparece sobre apoios de lajes contínuas, traciona a face superior e exige armadura negativa, colocada perto da face de cima.

Na laje mista, a fôrma de aço fica justamente na face inferior. Para que ela possa fazer o papel da armadura positiva, a chapa e o concreto não podem escorregar um em relação ao outro. Quem impede esse escorregamento são as mossas, pequenas saliências estampadas nas almas das nervuras, que se travam no concreto. É o mesmo princípio dos conectores da viga mista, em escala menor. Por isso, a laje steel deck dispensa as barras de armadura positiva que uma laje maciça precisaria.

A tela soldada que aparece na Figura 2 tem outra função: é uma malha leve de fios de aço colocada perto da face superior, para controlar a fissuração causada pela retração do concreto e pelas variações de temperatura. O catálogo da Metform recomenda essa armadura nas duas direções e, além dela, armaduras localizadas sobre as vigas principais e em volta dos pilares, onde a laje tende a trabalhar como contínua (METFORM, s.d.).

Figura 8 – Perfis trapezoidais das fôrmas Metform MF-50 e MF-75
Perfis trapezoidais das fôrmas MF-50 e MF-75 com largura útil, passo da onda, larguras das nervuras e altura

Fonte: elaborado pelo autor, com dados do catálogo Metform.

Tabela 7 – Características das fôrmas Metform

CaracterísticaMF-50MF-75
Altura da nervura, hF50 mm75 mm
Largura útil915 mm820 mm
Passo da onda305 mm274 mm
Largura média da nervura, bF152,5 mm137 mm
Altura total da laje100 a 170 mm130 a 200 mm
Aplicação indicadaHotéis, hospitais, escritórios, garagensEdificações industriais e cargas elevadas
Aço da chapaASTM A653 Grau 40 (ZAR-280), galvanizado, fy = 280 MPa; espessuras de 0,80, 0,95 e 1,25 mm; comprimento até 12 m
Concreto e armadurafck ≥ 20 MPa; tela soldada com área de pelo menos 0,1% da seção de concreto acima da fôrma

Fonte: catálogo Metform Steel Deck.

8.2Regras para usar a fôrma em viga mista

Para que a laje mista possa ser considerada na viga mista, a NBR 8800:2024 impõe limites geométricos (ABNT, 2024, item L.2.6.1):

  • altura das nervuras hF ≤ 75 mm;
  • largura média bF da nervura situada sobre o perfil ≥ 50 mm, sem considerar no cálculo valor maior que a largura livre mínima no topo da fôrma;
  • conectores do tipo pino com cabeça, com diâmetro ≤ 19 mm, soldados através da fôrma ou por furos nela;
  • projeção do pino acima do topo da fôrma de pelo menos 40 mm, depois de instalado;
  • espessura de concreto acima do topo da fôrma de pelo menos 50 mm.

A especificação norte-americana traz limites equivalentes: nervura de até 75 mm, largura média de pelo menos 50 mm, projeção do pino de 38 mm, cobrimento de 13 mm sobre o pino, 50 mm de laje acima da fôrma e ancoragem da fôrma a cada 460 mm (AISC, 2016, seção I3.2c).

O cobrimento é a espessura de concreto entre uma peça de aço embutida, seja uma barra de armadura, a tela ou um conector, e a superfície de concreto mais próxima. Nas armaduras, ele protege o aço contra a corrosão e o fogo. Nos conectores, garante concreto suficiente em volta do fuste e da cabeça do pino para que ele se ancore na laje sem arrancar o concreto à sua volta.

Figura 9 – Limitações geométricas da laje com fôrma de aço, com nervuras perpendiculares e paralelas à viga
Corte longitudinal com nervuras perpendiculares e corte transversal com nervuras paralelas, cotando hF, tc, bF, hcs, projeção mínima do pino, cobrimento e emh

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.2.6.1 a L.2.6.3 e Figura L.11.

A direção das nervuras muda o modelo de cálculo. Com nervuras perpendiculares à viga, o caso das vigas secundárias, o concreto abaixo do topo da fôrma é desprezado na determinação das propriedades da seção, e a fôrma deve ser ancorada no perfil a cada 450 mm no máximo, por pinos ou soldas tampão (ABNT, 2024, item L.2.6.2). Com nervuras paralelas, o concreto das nervuras pode ser incluído se estiver todo comprimido, e a fôrma pode ser interrompida sobre a mesa para formar uma mísula de concreto (item L.2.6.3). A planilha despreza o concreto das nervuras também no caso paralelo, a favor da segurança.

Na obra · ancoragem da fôrma e solda tampão

Antes da concretagem, a fôrma precisa estar presa ao perfil. A ancoragem impede que as chapas sejam levantadas pelo vento ou deslizem durante a montagem e faz com que a fôrma trave lateralmente a mesa superior do perfil na concretagem (seção 9.1). Onde há pinos soldados através da fôrma, os próprios pinos fazem essa ancoragem. Nos demais pontos, por exemplo sobre vigas sem conectores ou para completar o espaçamento máximo de 450 mm, usa-se a solda tampão.

No steel deck, a solda tampão é um ponto de solda feito com eletrodo revestido diretamente sobre a chapa, sem furo prévio. O arco fura e funde a chapa fina e a superfície da mesa logo abaixo dela, e o metal de adição forma um botão de solda, da ordem de 15 a 20 mm de diâmetro, que prende a chapa ao perfil. Em chapas muito finas, pode-se usar uma arruela de aço sobre a chapa para que o arco não abra um buraco grande. Em inglês, essa solda é chamada de puddle weld ou arc spot weld, e a especificação norte-americana prevê a ancoragem da fôrma a cada 460 mm por conectores, por esses pontos de solda ou por outros dispositivos definidos no projeto (AISC, 2016, seção I3.2c). Na prática também se usam parafusos autobrocantes ou pinos cravados a pólvora, conforme o manual do fabricante da fôrma.

Atenção ao nome: nas normas de soldagem, solda tampão (em inglês, plug weld) designa a solda que preenche um furo feito previamente em uma das chapas. No contexto do steel deck, o termo é usado para o ponto de solda feito sem furo.

Exemplo · limitações de L.2.6.1

hF = 75 mm ≤ 75 mm · bF = 137 mm ≥ 50 mm · pino Ø19 ≤ 19 mm

Projeção do pino: 125 − 75 = 50 mm ≥ 40 mm · cobrimento sobre o pino: 140 − 125 = 15 mm

tc = 65 mm ≥ 50 mm: todas as limitações atendidas.

8.3A própria laje se verifica pelo catálogo

A laje mista em si é dimensionada pelo Anexo N da NBR 8800:2024. Na prática de projeto, porém, usam-se as tabelas do fabricante, que já trazem, para cada combinação de fôrma, espessura de chapa e altura de laje, o vão máximo sem escoramento e a carga sobreposta máxima em função do vão. A carga sobreposta é tudo o que atua além do peso próprio da laje: revestimentos, forro e sobrecarga, em valores característicos. Segundo o catálogo, as tabelas foram elaboradas pelo Anexo C da ABNT NBR 14323 e valem em temperatura ambiente ou em situação de incêndio até 30 minutos (METFORM, s.d.).

Tabela 8 – Linha do catálogo para MF-75, chapa de 0,80 mm e laje de 140 mm

Vão máximo sem escoramento (simples / duplo / triplo)Peso próprioInércia da laje mistaCarga sobreposta máxima para vão de 2 700 / 2 800 / 2 900 mm
2 200 / 3 100 / 3 200 mm2,50 kN/m²13,17·10⁶ mm⁴/m6,11 / 5,51 / 4,97 kN/m²

Fonte: catálogo Metform Steel Deck, tabela da MF-75.

A continuidade da chapa faz muita diferença na concretagem. A mesma chapa, contínua sobre três vãos, dispensa escoramento até 3 200 mm; em vão simples, só até 2 200 mm. Para a fase inicial, o Anexo N limita ainda a flecha da fôrma a LF/180 ou 20 mm, sem contar a sobrecarga de construção (ABNT, 2024, item N.2.2).

Exemplo · verificação da laje pelo catálogo

Escoramento: vão da laje 2 800 mm ≤ 3 200 mm (fôrma contínua sobre três vãos). Dispensa escoramento. Em vão simples, seria necessário escorar.

Carga sobreposta: g2 + q = 1,55 + 3,25 = 4,80 kN/m² ≤ 5,51 kN/m². Atende, com 87% de utilização.

8.4Largura efetiva da laje

Nem toda a laje trabalha junto com a viga. As tensões de compressão na laje não são uniformes: são máximas sobre o perfil e diminuem à medida que se afastam dele, por causa da deformação por cisalhamento no plano da laje, fenômeno conhecido como shear lag. A largura efetiva é a largura fictícia que, com tensão uniforme, produz a mesma resultante de compressão (Figura 10).

Figura 10 – Largura efetiva: planta do piso e distribuição real e equivalente das tensões na laje
Planta do piso com a faixa de largura efetiva sobre a viga analisada e corte mostrando a distribuição real das tensões na laje e a tensão uniforme equivalente

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.2.2.1.1.

Em vigas mistas biapoiadas com laje maciça, mista ou com pré-laje, a largura efetiva de cada lado do eixo da viga é o menor entre três valores (ABNT, 2024, item L.2.2.1.1):

  1. 1/8 do vão da viga, entre centros dos apoios;
  2. metade da distância entre o eixo da viga e o eixo da viga adjacente;
  3. distância do eixo da viga à borda de uma laje em balanço.

Nas vigas contínuas e semicontínuas, o vão é substituído pela distância entre pontos de momento nulo (item L.2.2.2). Para lajes alveolares há um limite adicional, ligado ao comprimento das armaduras colocadas nos alvéolos (item L.2.2.1.2).

Exemplo · largura efetiva

L/8 = 9,00/8 = 1,125 m · e/2 = 2,80/2 = 1,40 m (para cada lado)

b = 2 × 1,125 = 2,25 m (governa o vão, e b fica menor que o espaçamento de 2,80 m)

9Fase de construção

9.1Construção escorada e não escorada

Uma viga mista só é mista depois que o concreto endurece. Enquanto o concreto está fresco, alguém precisa carregar o seu peso, e há duas maneiras de construir:

  • Construção não escorada: a fôrma de aço apoia-se nas vigas, e o perfil de aço, sozinho, carrega o concreto fresco, a fôrma e a sobrecarga de construção. Ele flete e fica tensionado já nessa fase.
  • Construção escorada: antes da concretagem, colocam-se escoras (pontaletes) sob a viga, apoiadas no piso de baixo. O peso do concreto fresco desce pelas escoras, e o perfil fica descarregado. Só depois que o concreto endurece as escoras são retiradas, e aí o peso da laje passa para a viga, que já trabalha como seção mista.

A norma só aceita calcular a viga como escorada se duas condições forem cumpridas na obra (ABNT, 2024, item L.1.1.2-g):

  1. As escoras precisam realmente aliviar o perfil. O perfil deve ficar “praticamente sem solicitação” durante a concretagem, isto é, quase sem momento fletor e sem flechar. Escoras poucas, muito espaçadas ou apoiadas em base que cede deixam o perfil trabalhar sozinho, e então a viga não é escorada para efeito de cálculo.
  2. As escoras só podem sair depois que o concreto atingir 75% da sua resistência característica, ou seja, fc ≥ 0,75·fck. Com o C30 do exemplo, isso significa esperar o concreto chegar a 22,5 MPa, o que se confirma pelo ensaio de corpos de prova moldados na concretagem.

Cumpridas as duas condições, quando as escoras são retiradas o concreto já colabora com o perfil, e a seção mista resiste a todas as ações, inclusive ao peso próprio da laje. Se qualquer uma delas falhar, a viga deve ser verificada como não escorada. A Figura 11 compara as tensões nos dois casos, com os números do exemplo.

Figura 11 – Tensões nas construções não escorada e escorada
(a) Construção não escorada: na fase 1 o perfil isolado recebe g1 e a sobrecarga de construção qc (114,5 MPa durante a concretagem; 84,7 MPa permanecem após a retirada de qc); na fase 2 a seção mista recebe g2 e q (96,4 MPa); as tensões somam 181,1 MPa. (b) Construção escorada: as escoras recebem o concreto fresco e o perfil fica quase sem tensão; retiradas as escoras, a seção mista recebe todas as ações (cerca de 156 MPa)

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.1.1.2-g e L.2.3.2. Valores do exemplo das seções 14.1 a 14.4; o valor da viga escorada é ilustrativo (g1 aplicado à seção mista de longa duração).

Na construção não escorada, o perfil de aço, sozinho, deve resistir a todas as ações de cálculo aplicadas antes de o concreto atingir 0,75·fck (ABNT, 2024, item L.2.3.2-a). Se a viga for biapoiada e suportar uma fôrma de aço devidamente ligada a ela, pode ser considerada contida lateralmente. Com outros tipos de laje, o perfil é verificado como destravado, com atenção à torção e a estados-limite localizados. Essa fase costuma ser esquecida e pode governar o dimensionamento de vigas longas com laje maciça.

Depois da cura, as tensões das duas fases se somam na mesa inferior. O tipo de construção também aparece no grau de interação mínimo, pelo coeficiente cp (seção 11.2).

Como verificar a tensão na mesa inferior (construção não escorada). Na construção não escorada, o perfil chega à fase 2 já tensionado pelo peso do concreto. As cargas da fase 2 somam-se a essa tensão, e a mesa inferior, que é a fibra mais tracionada, pode escoar em serviço antes do que um cálculo “todo misto” indicaria. Se ela escoar, deixam de valer as flechas calculadas por análise elástica (ABNT, 2024, item L.1.2.3). A verificação segue cinco passos:

  1. Escolher o caso pela esbeltez da alma. Se h/tw ≤ 3,76·√(E/fy), aplica-se o item L.2.3.2-b: momentos nominais da combinação rara de serviço e limite fy. Se 3,76·√(E/fy) < h/tw ≤ 5,70·√(E/fy), aplica-se o item L.2.3.2-c: momentos de cálculo da combinação última normal e limite fyd = fy/γa1.
  2. Separar as ações pelo instante em que entram. Antes de o concreto atingir 0,75·fck: g1, isto é, o peso do perfil, da fôrma e do concreto, sem a sobrecarga de construção, que é retirada (quadro abaixo). Depois: g2 (revestimento, forro, dutos) e q (uso e divisórias).
  3. Calcular os momentos de cada fase. Na combinação rara, as permanentes e a variável principal entram com valor integral, sem coeficientes de ponderação, e as variáveis secundárias com ψ1. Para a viga biapoiada: MGa,S = g1·L²/8 e ML,S = (g2 + q)·L²/8.
  4. Calcular a tensão de cada fase com a seção que a resiste. O momento da fase 1 atua no perfil isolado, com módulo resistente Wa. O da fase 2 atua na seção mista, com o módulo efetivo Wef da interação parcial. Na planilha, g2 usa o Wef de longa duração, com fluência, e q o de curta duração.
  5. Somar e comparar com fy. No caso b, o limite é a resistência ao escoamento sem o coeficiente γa1: é uma verificação de serviço, cuja pergunta é “o aço escoa sob as cargas reais?”, e não uma verificação de resistência com margem de segurança.
σ = MGa,S/Wa + ML,S/Wef ≤ fy(9.1)

Exemplo · tensão na mesa inferior da V1

Alma: h/tw = 404/7,6 = 53,2 ≤ 3,76 × √(20 000/34,5) = 3,76 × 24,08 = 90,5 → caso b (combinação rara, limite fy)

Fase 1: MGa,S = g1·L²/8 = 7,94 × 9,00²/8 = 80,4 kN·m = 8 040 kN·cm

σ1 = MGa,S/Wa = 8 040/949,8 = 8,47 kN/cm² = 84,7 MPa (sem qc)

Fase 2, g2: M = 4,34 × 9,00²/8 = 43,9 kN·m = 4 394 kN·cm → σ = 4 394/1 344 = 3,27 kN/cm² = 32,7 MPa (Wef de longa duração)

Fase 2, q: M = 9,10 × 9,00²/8 = 92,1 kN·m = 9 214 kN·cm → σ = 9 214/1 446 = 6,37 kN/cm² = 63,7 MPa (Wef de curta duração)

σ = 84,7 + 32,7 + 63,7 = 181,1 MPa ≤ fy = 345 MPa. Atende, com 52%. Os módulos Wef são calculados na seção 14.4.

Tabela 9 – Resumo das três verificações ligadas à fase 1

VerificaçãoAções da fase 1CombinaçãoSeçãoLimite
Resistência do perfil na concretagem (L.2.3.2-a, seção 9.2)g1 + qcúltima de construção, com coeficientes γperfil isoladoMRd do perfil, com γa1
Tensão na mesa inferior em serviço (L.2.3.2-b)só g1; depois g2 + q na seção mistarara de serviço, sem coeficientesWa na fase 1; Wef na fase 2fy, sem γa1
Flecha da fase 1 e contraflecha (seções 14.1 e 14.2)só g1serviçoIx do perfil isoladocontraflecha ≤ δ1

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, itens L.2.3.2 e B.3.2.

Dúvida frequente · a sobrecarga de construção entra na fase 1?

Entra, mas só em uma das verificações. Durante a concretagem há operários, equipamentos, mangotes e concreto acumulado sobre a fôrma. Esse peso é a sobrecarga de construção, aqui chamada de qc, com valor característico de 1,0 kN/m² uniforme ou 2,2 kN/m em linha, o que for mais nocivo (ABNT, 2024, item N.4.1.3). Ela aparece em duas perguntas diferentes sobre a fase 1, com respostas diferentes:

  1. O perfil aguenta a concretagem? Sim, com qc. É o estado-limite último da fase de construção: o perfil isolado deve resistir a todas as ações de cálculo aplicadas antes de o concreto atingir 0,75·fck (ABNT, 2024, item L.2.3.2-a), na combinação última de construção (item 4.8.7.2.3). No exemplo, qd,c = 1,25 × 7,18 + 1,15 × 0,77 + 1,30 × 2,80 = 13,49 kN/m e MSd,c = 136,6 kN·m (seções 7.4 e 9.2).
  2. Que tensão fica no perfil depois que a viga vira mista? Só a de g1. A sobrecarga de construção é temporária: termina a concretagem, a equipe e os equipamentos saem da laje. Como o perfil trabalhou em regime elástico (o item anterior garante que ele não escoou), a tensão e a flecha causadas por qc desaparecem quando ela é retirada. O que fica “travado” no perfil quando o concreto endurece é apenas o efeito do peso próprio do perfil, da fôrma e do concreto. Depois disso, a seção mista recebe g2 e q, e qc não volta a atuar junto com a sobrecarga de uso.

Por isso qc não entra em MGa,S na verificação de tensão em serviço (seção 14.4) nem na flecha δ1 usada para definir a contraflecha. O texto da NBR 8800 fala apenas em “ações aplicadas antes” de o concreto atingir 0,75·fck, sem citar a sobrecarga de construção. O comentário da especificação norte-americana é explícito: as tensões a superpor no perfil são as das cargas permanentes aplicadas antes da cura (AISC, 2016, Comentário I3.2a). Se algum material ficar estocado sobre a laje depois que o concreto endureceu, ele atua na seção mista e deve ser tratado como sobrecarga da fase 2.

9.2O perfil isolado na concretagem

O momento resistente do perfil isolado segue a seção 5.4.2 e o Anexo D da norma. Para cada estado-limite, calcula-se a esbeltez λ e compara-se com os limites λp e λr. Até λp, vale o momento de plastificação Mpl = Zx·fy. Entre λp e λr, interpola-se linearmente até Mr = (fy − σr)·W, com tensão residual σr = 0,3·fy. Acima de λr, vale o momento crítico elástico (ABNT, 2024, Anexo D).

Tabela 10 – Parâmetros de esbeltez para perfis I fletidos em torno do eixo de maior inércia

Estado-limiteλλpλrExemplo
FLMbf/(2·tf)0,38·√(E/fy)0,83·√(E/(fy − σr)) (laminados)7,04 ≤ 9,15
FLAh/tw3,76·√(E/fy)5,70·√(E/fy)53,2 ≤ 90,5
FLTLb/ry1,76·√(E/fy)D.2.8-a, com Cbcontido pela fôrma

Fonte: ABNT NBR 8800:2024, Anexo D, Tabela D.1 e D.2.8.

O momento resistente de cálculo é o menor dos três, dividido por γa1, e limitado a 1,5·W·fy/γa1 (ABNT, 2024, item 5.4.2.2).

Exemplo · perfil isolado na concretagem

Perfil W460x52,0 em aço ASTM A572 grau 50: fy = 34,5 kN/cm² e E = 20 000 kN/cm² (200 000 MPa). Nas raízes, E e fy entram na mesma unidade, e a razão fica adimensional.

1. Solicitação na concretagem (seção 7.4)

Concreto fresco: 2,56 kN/m² × 2,80 m = 7,18 kN/m; fôrma e perfil: 0,09 × 2,80 + 0,51 = 0,77 kN/m; qc = 1,0 kN/m² × 2,80 m = 2,80 kN/m

qd,c = 1,25 × 7,18 + 1,15 × 0,77 + 1,30 × 2,80 = 8,97 + 0,88 + 3,64 = 13,49 kN/m

MSd,c = qd,c·L²/8 = 13,49 × 9,00²/8 = 13,49 × 81/8 = 136,6 kN·m

2. Flambagem local da mesa (FLM)

λ = bf/(2·tf) = 152/(2 × 10,8) = 152/21,6 = 7,04

λp = 0,38 × √(E/fy) = 0,38 × √(20 000/34,5) = 0,38 × √579,7 = 0,38 × 24,08 = 9,15

λ = 7,04 ≤ λp = 9,15 → mesa compacta: a FLM não reduz o momento, vale Mpl

3. Flambagem local da alma (FLA)

λ = h/tw = d′/tw = 404/7,6 = 53,2

λp = 3,76 × √(E/fy) = 3,76 × √(20 000/34,5) = 3,76 × 24,08 = 90,5

λ = 53,2 ≤ λp = 90,5 → alma compacta: vale Mpl

4. Flambagem lateral com torção (FLT)

A fôrma de aço, ligada à mesa superior pelos pinos, trava o perfil biapoiado ao longo do vão (L.2.3.2-a) → Lb ≈ 0: a FLT não ocorre, vale Mpl

5. Momento resistente de cálculo

Mpl = Zx·fy = 1 095,9 cm³ × 34,5 kN/cm² = 37 809 kN·cm

Limite: 1,5·Wx·fy = 1,5 × 949,8 × 34,5 = 49 152 kN·cm → Mpl = 37 809 kN·cm < 49 152 kN·cm, o limite não governa

MRd,a = Mpl/γa1 = 37 809/1,10 = 34 371 kN·cm = 343,7 kN·m

6. Verificação

MSd,c = 136,6 kN·m ≤ MRd,a = 343,7 kN·m. Atende: 136,6/343,7 = 0,40, ou seja, 40% de utilização.

Com laje maciça, o perfil não é travado pela fôrma, e o comprimento destravado Lb passa a ser o vão inteiro, a menos que se prevejam travamentos provisórios. Nesse caso a FLT pode reduzir drasticamente o momento resistente: é o primeiro exercício proposto ao final do capítulo.

10Conectores de cisalhamento

10.1Resistência do pino com cabeça

O conector mais usado é o pino com cabeça, nome adotado pela NBR 8800: uma barra cilíndrica de aço com uma cabeça forjada em uma das pontas, soldada ao perfil pela outra ponta. Na prática de obra, nos catálogos e nos projetos, a mesma peça é muito mais conhecida como stud bolt, ou simplesmente stud; o próprio catálogo da Metform usa esse nome (METFORM, s.d.). Os dois termos designam o mesmo conector. Uma curiosidade para quem vem da mecânica: no inglês técnico, stud bolt costuma designar um prisioneiro, isto é, uma barra roscada nas duas pontas. A especificação norte-americana chama o conector de steel headed stud anchor (AISC, 2016, capítulo I).

A sua resistência é o menor entre dois modos de falha: o esmagamento do concreto em volta do pino e a ruptura do próprio pino (ABNT, 2024, item L.4.2.1.1):

QRd = mín { ½·Acs·√(fck·Ec) / γcs  ;  Rg·Rp·Acs·fucs / γcs }(10.1)

Acs é a área da seção transversal do pino; fucs, a resistência à ruptura do aço do pino; fck e Ec em kN/cm².

γcs = 1,25 nas combinações normais, especiais e de construção, e 1,10 nas excepcionais.

Rg considera o efeito de grupo e Rp, a posição do pino em relação à fôrma.

Tabela 11 – Coeficientes Rg e Rp do pino com cabeça

Coef.ValorSituação
Rg1,00Um pino por nervura perpendicular; qualquer número de pinos em linha soldados diretamente no perfil; nervura paralela com bF/hF ≥ 1,5
Rg0,90Laje alveolar
Rg0,85Dois pinos por nervura perpendicular; um pino em nervura paralela com bF/hF < 1,5
Rg0,70Três ou mais pinos por nervura perpendicular
Rp0,75Pino soldado diretamente no perfil; nervura paralela; nervura perpendicular com emh ≥ 50 mm
Rp0,60Nervura perpendicular com emh < 50 mm

Fonte: ABNT NBR 8800:2024, L.4.2.1.2 e L.4.2.1.3.

A distância emh é medida da borda do fuste do pino até a alma da nervura, a meia altura da nervura, no sentido da força cortante que atua no conector (ABNT, 2024, Figura L.13). Uma mudança importante da edição 2024: o pino soldado diretamente no perfil, sem fôrma, passou a ter Rp = 0,75. Na edição de 2008 esse valor era 1,00. Quando a ruptura do aço governa, isso reduz em 25% a resistência do pino em relação a projetos antigos.

Como o pino é soldado

O pino não é soldado com eletrodo, como uma solda de filete comum. Ele é fixado por um processo próprio, a soldagem de pinos por arco elétrico (em inglês, stud welding), feita com uma pistola de soldagem ligada a uma fonte de energia de alta corrente com controle de tempo. O processo é praticamente automático: o operador posiciona a pistola e aperta o gatilho, e o equipamento faz o resto. Cada pino leva menos de um segundo para ser soldado, o que permite instalar centenas de pinos por dia com uma equipe pequena, e a solda é feita de cima, sobre a própria fôrma, sem acesso por baixo da laje. A Figura 12 mostra a sequência.

Figura 12 – Sequência da soldagem de um pino com cabeça através da fôrma de aço
Quatro etapas: 1, o pino é colocado no mandril da pistola com o anel cerâmico na ponta, encostado na fôrma sobre a mesa do perfil; 2, a pistola levanta o pino e abre o arco elétrico; 3, uma mola mergulha o pino na poça fundida; 4, o anel cerâmico é quebrado e fica um filete de solda em volta da base do pino

Fonte: elaborado pelo autor.

  1. Posicionar. O pino é encaixado no mandril da pistola. Na ponta a ser soldada ele recebe um anel cerâmico (em inglês, ferrule), e a própria ponta do pino traz uma pequena carga de fluxo, que desoxida o metal fundido. O operador encosta o pino na chapa da fôrma, exatamente sobre a mesa do perfil, apoiando a pistola na vertical.
  2. Abrir o arco. Ao acionar o gatilho, a pistola levanta o pino alguns milímetros e abre um arco elétrico entre ele e a chapa, com corrente muito alta durante uma fração de segundo. O calor funde a ponta do pino, atravessa a chapa galvanizada da fôrma e funde a superfície da mesa do perfil.
  3. Mergulhar. Terminado o tempo programado, uma mola da pistola empurra o pino para dentro da poça de metal fundido e a corrente é cortada. O anel cerâmico contém o metal líquido e dá forma ao filete em volta da base do pino.
  4. Retirar o anel. Depois que o metal solidifica, o anel cerâmico é quebrado e descartado. Fica um filete contínuo em toda a volta do pino, que termina com o comprimento final previsto em projeto, um pouco menor que o original, porque parte dele é consumida na solda.

A soldagem através da fôrma é mais delicada que a soldagem direta na mesa. A chapa precisa estar bem assentada sobre o perfil, sem folga, e limpa e seca. A camada de zinco da chapa galvanizada, a umidade e eventual pintura da mesa prejudicam a fusão, e por isso a corrente e o tempo dependem da espessura da chapa e do revestimento. É por essa sensibilidade que a NBR 8800 lembra que a solda de pinos através da fôrma não é pré-qualificada pela AWS D1.1 e deve ser qualificada em cada obra (ABNT, 2024, item L.4.1). Na produção, o controle é simples: inspeção visual do filete, que deve envolver todo o pino, e ensaios de dobramento, em que alguns pinos são dobrados a martelo, no início de cada turno de trabalho, para verificar se a solda não se rompe (AWS, 2020).

O valor fucs = 415 MPa é o usual na literatura técnica brasileira; a AWS D1.1 especifica 450 MPa para os pinos do tipo B.

Exemplo · resistência de um pino Ø19

Unidades: kN e cm. Lembre que 1 kN/cm² = 10 MPa.

1. Dados

Área do fuste: Acs = π·dcs²/4 = π × 1,9²/4 = π × 3,61/4 = 11,34/4 = 2,835 cm²

Concreto C30: fck = 30 MPa = 3,0 kN/cm²; Ec = 26 072 MPa = 2 607 kN/cm² (seção 6.2)

Aço do pino: fucs = 415 MPa = 41,5 kN/cm²; γcs = 1,25 (combinação normal)

2. Coeficientes Rg e Rp (Tabela 11)

Um pino por nervura, com nervuras perpendiculares à viga → Rg = 1,00

Pino centrado na nervura: emh = (bF − dcs)/2 = (137 − 19)/2 = 118/2 = 59 mm ≥ 50 mm → Rp = 0,75 (Figura 13b)

3. Esmagamento do concreto em volta do pino

fck·Ec = 3,0 × 2 607 = 7 821 → √7 821 = 88,44 kN/cm²

QRd1 = ½·Acs·√(fck·Ec)/γcs = 0,5 × 2,835 × 88,44/1,25 = 125,4/1,25 = 100,3 kN

4. Ruptura do aço do pino

QRd2 = Rg·Rp·Acs·fucs/γcs = 1,00 × 0,75 × 2,835 × 41,5/1,25 = 88,24/1,25 = 70,6 kN

5. Resistência do pino

QRd = mín(100,3; 70,6) = 70,6 kN. Governa a ruptura do aço, com 70% do valor do concreto (70,6/100,3 = 0,70).

10.2Conector em perfil U

Em lajes maciças, pode-se usar como conector um perfil U laminado, com altura da seção de pelo menos 75 mm, totalmente embutido em laje de face inferior plana e diretamente apoiada sobre a viga (ABNT, 2024, item L.4.2.2.1):

QRd = 0,3·(tfcs + 0,5·twcs)·Lcs·√(fck·Ec) / γcs(10.2)

tfcs é a espessura da mesa do conector, tomada a meia distância entre a borda livre e a face da alma; twcs, a espessura da alma; Lcs, o comprimento do conector.

Para U formado a frio, tfcs = twcs = espessura da chapa, e recomenda-se chapa de pelo menos 4,75 mm, raio interno de dobra de pelo menos 2t, altura de pelo menos 75 mm e 12,5t e mesa de pelo menos 40 mm e 6t, para evitar trincas nas dobras (item L.4.2.2.2). O U é instalado com uma das mesas apoiada no perfil e a alma perpendicular ao eixo da viga (item L.4.2.2.3), com solda contínua pelo menos nas duas extremidades da mesa, dimensionada para 1,25·QRd (item L.4.1). Ele não pode ser usado com steel deck, que exige pino com cabeça (item L.2.6.1-c).

Exemplo complementar · U 101,6 × 8,0 em laje maciça de 120 mm

Perfil U laminado de 101,6 mm (4") com 8,0 kg/m, com comprimento de 100 mm, soldado sobre a mesa de uma viga com laje maciça de 120 mm e concreto C30. Unidades: kN e cm.

1. Dados do conector

tfcs = 7,52 mm = 0,752 cm (mesa, a meia largura); twcs = 4,67 mm = 0,467 cm (alma); Lcs = 100 mm = 10,0 cm

√(fck·Ec) = √(3,0 × 2 607) = √7 821 = 88,44 kN/cm² (o mesmo do pino); γcs = 1,25

2. Requisitos geométricos

Altura: 101,6 mm ≥ 75 mm (L.4.2.2.1) · embutido na laje: 101,6 mm < 120 mm

3. Resistência (equação 10.2)

Espessura equivalente: tfcs + 0,5·twcs = 0,752 + 0,5 × 0,467 = 0,752 + 0,234 = 0,986 cm

Área de contato equivalente: 0,986 × Lcs = 0,986 × 10,0 = 9,86 cm²

QRd = 0,3 × 9,86 × 88,44/1,25 = 2,957 × 88,44/1,25 = 261,5/1,25 = 209,2 kN

4. Consequências para o projeto

Solda nas extremidades da mesa dimensionada para 1,25·QRd = 1,25 × 209,2 = 261,5 kN (L.4.1)

Espaçamento mínimo: o maior entre a altura e o comprimento do conector = máx(101,6; 100) = 101,6 mm (L.4.3.4)

QRd = 209,2 kN: 209,2/70,6 = 2,96, quase três vezes a resistência de um pino Ø19.

10.3Disposição dos conectores

Figura 13 – Pino com cabeça, conector em perfil U e espaçamentos mínimos e máximos sobre a mesa do perfil
(a) Pino com cabeça cotado, com diâmetro, cabeça, altura mínima de 4 diâmetros e filete de solda. (b) Pino na nervura baixa da MF-75 em laje de 140 mm: hF = 75 mm, tc = 65 mm, hcs = 125 mm, projeção de 50 mm, cobrimento de 15 mm, bF = 137 mm e emh = 59 mm, que leva a Rp = 0,75. (c) Perfil U em laje maciça, com hU, tfcs e twcs. (d) Planta da mesa superior com um pino por nervura baixa a cada 274 mm, espaçamento transversal mínimo e regras de espaçamento

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.2.6, L.4.1, L.4.2, L.4.3 e L.4.4, e no catálogo Metform. Nervura da MF-75 com as dimensões do catálogo: base de 119 mm, topo de 155 mm e altura de 75 mm.

As regras de disposição estão nos itens L.4.1, L.4.3 e L.4.4 da NBR 8800:2024:

  • o pino deve ter, depois de instalado, comprimento de pelo menos 4 diâmetros e ficar totalmente embutido no concreto, com cobrimento superior de pelo menos 10 mm (L.4.1);
  • em vigas biapoiadas com carga distribuída, os conectores podem ser uniformemente espaçados entre a seção de momento máximo e a de momento nulo; com cargas concentradas, verifica-se o número mínimo de conectores entre a seção da carga e o apoio (L.4.3.1);
  • espaçamento máximo de 8 vezes a espessura total da laje e, com fôrma de nervuras perpendiculares, 915 mm (L.4.3.3);
  • espaçamento mínimo de 6 diâmetros ao longo do vão e 4 diâmetros na transversal; com fôrma de aço, 4 diâmetros em qualquer direção; para o perfil U, o maior entre a altura e o comprimento do conector (L.4.3.4);
  • diâmetro do pino de no máximo 2,5 vezes a espessura da mesa, exceto quando o pino fica sobre a alma (L.4.4.1);
  • cobrimento lateral de pelo menos 25 mm, exceto em nervuras de fôrma de aço (L.4.4.2);
  • ancoragem da fôrma no perfil a cada 450 mm no máximo (L.2.6.2-b).

Exemplo · disposição dos pinos

Um pino Ø19 × 125 mm em cada nervura baixa da MF-75, sobre a alma do W460x52,0; laje de 140 mm (Figura 13b e 13d).

1. Espaçamento ao longo do vão

Com um pino por nervura, o espaçamento é o passo da fôrma: s = 274 mm

Mínimo, com fôrma de aço: 4·dcs = 4 × 19 = 76 mm → 274 mm ≥ 76 mm (L.4.3.4)

Máximo: 8 × hlaje = 8 × 140 = 1 120 mm; com nervuras perpendiculares, 915 mm → vale 915 mm; 274 mm ≤ 915 mm (L.4.3.3)

Ancoragem da fôrma: ≤ 450 mm → 274 mm ≤ 450 mm; os próprios pinos ancoram a fôrma (L.2.6.2-b)

2. Diâmetro, comprimento e cobrimentos

Diâmetro: 2,5·tf = 2,5 × 10,8 = 27 mm ≥ 19 mm (L.4.4.1; o pino ainda fica sobre a alma)

Comprimento após a instalação: 125 mm ≥ 4·dcs = 4 × 19 = 76 mm (L.4.1)

Projeção acima da fôrma: 125 − 75 = 50 mm ≥ 40 mm · cobrimento superior: 140 − 125 = 15 mm ≥ 10 mm

Cobrimento lateral de 25 mm: não se aplica, porque o pino está em nervura de fôrma (L.4.4.2)

3. Número de pinos

Entre o apoio e o meio do vão: L/2 = 4 500 mm → 4 500/274 = 16,4 → 16 nervuras, 16 pinos

Na viga inteira: 2 × 16 = 32 pinos; a suficiência desse número é verificada no grau de interação (seção 11)

Todas as regras de disposição são atendidas.

11Grau de interação

11.1Força de cisalhamento e grau de interação

Para que a interação seja completa, os conectores situados entre a seção de momento máximo e o apoio precisam transmitir uma força igual à menor entre a resistência do perfil à tração e a resistência da laje à compressão (ABNT, 2024, itens L.1.1.2-f e L.2.3.1.1.2):

Fhd = mín ( Aa·fyd  ;  0,85·ηc·fcd·b·tc )(11.1)

em que Aa é a área do perfil, b a largura efetiva e tc a espessura de concreto considerada, que na laje mista é a espessura acima do topo da fôrma. O grau de interação é a razão entre a força que os conectores efetivamente transmitem, a soma das resistências ΣQRd dos conectores do meio vão, e essa força:

η = ΣQRd / Fhd  ≤ 1,0(11.2)

Exemplo · grau de interação

Unidades: kN e cm.

1. Resistência do perfil à tração

Aa = 66,6 cm² (catálogo do W460x52,0)

fyd = fy/γa1 = 34,5/1,10 = 31,36 kN/cm²

Aa·fyd = 66,6 × 31,36 = 2 088,8 kN

2. Resistência da laje à compressão

fcd = fck/γc = 3,0/1,40 = 2,143 kN/cm²; ηc = 1,0 (fck ≤ 40 MPa)

b = 225 cm (seção 8.4); tc = altura da laje − hF = 14,0 − 7,5 = 6,5 cm (só o concreto acima da fôrma, porque as nervuras são perpendiculares à viga)

0,85·ηc·fcd·b·tc = 0,85 × 1,0 × 2,143 × 225 × 6,5 = 1,821 × 1 462,5 = 2 663,8 kN

3. Força para interação completa

Fhd = mín(2 088,8; 2 663,8) = 2 088,8 kN (governa o perfil: a laje resistiria mais)

4. Força que os conectores transmitem

16 pinos entre o apoio e o meio do vão (seção 10.3): ΣQRd = 16 × 70,6 = 1 129,6 kN

5. Grau de interação

η = ΣQRd/Fhd = 1 129,6/2 088,8 = 0,541 ≈ 0,54 < 1,0: interação parcial

A área Aa = 66,6 cm² é a do catálogo, que já inclui os raios de concordância entre as mesas e a alma. Em perfis laminados, não há motivo para usar outro valor. O modelo de chapas, Aa = 2·bf·tf + hw·tw, só faz sentido em perfis soldados, que não têm esses raios.

Para a interação completa seriam necessários 2 088,8/70,6 = 29,6, ou seja, 30 pinos por meio vão. Isso não cabe com um pino por nervura a cada 274 mm: exigiria dois pinos por nervura, com Rg = 0,85. Como se verá, com η = 0,54 a viga já atende com folga.

11.2Grau de interação mínimo

A interação parcial é aceita desde que o grau de interação não fique abaixo de um mínimo. A edição 2024 da NBR 8800 reformulou esse limite (ABNT, 2024, item L.2.3.1.1.2). O grau de interação η não pode ser inferior a ηi, e ηi, por sua vez, não pode ser menor que um limite inferior ηlim:

η ≥ ηi = cp·cr²·η0 ≥ ηlim   (e ηi ≤ 1,0)(11.3)
η0 = 1 − E/(580·fy)·[0,75 − 0,45·ρ − (0,030 − 0,015·ρ)·Le](11.4)
ηlim = 0,4·cr·(1 + 0,8·ρ)(11.5)

η0 é o grau de interação básico; E e fy em MPa; Le é o comprimento do trecho de momento positivo, em metros (na viga biapoiada, o próprio vão).

ρ = ½·(Afb/Aft − 1) mede a assimetria do perfil, em que Afb e Aft são as áreas das mesas inferior e superior, com Afb ≤ 3·Aft; vale zero em perfis de mesas iguais.

cp = 0,85 para construção não escorada e 1,00 para escorada.

cr = MSd/MRd ≥ 0,7 representa a utilização da viga.

Na prática, o mínimo exigido é o maior entre cp·cr²·η0 e ηlim, sem passar de 1,0. O raciocínio por trás da expressão é físico. Com poucos conectores, o escorregamento na interface cresce, e em vãos longos os conectores das extremidades precisariam de uma capacidade de deformação maior do que a que têm. Por isso η0 aumenta com o vão Le e diminui com a ductilidade do aço. O coeficiente cr aparece ao quadrado em ηi e de forma linear em ηlim: uma viga pouco solicitada pode ter menos conectores, mas cr nunca é tomado menor que 0,7. A planilha usa no coeficiente cr o momento resistente com o grau de interação adotado.

Exemplo · grau de interação mínimo

1. Assimetria do perfil

W460x52,0 de mesas iguais: Afb = Aft = bf·tf = 15,2 × 1,08 = 16,42 cm²

ρ = ½ × (16,42/16,42 − 1) = ½ × 0 = 0

2. Grau de interação básico (equação 11.4)

E/(580·fy) = 200 000/(580 × 345) = 200 000/200 100 = 0,9995

Colchete: 0,75 − 0,45 × 0 − (0,030 − 0,015 × 0) × 9,00 = 0,75 − 0,270 = 0,480

η0 = 1 − 0,9995 × 0,480 = 1 − 0,480 = 0,520

3. Coeficientes cp e cr

Construção não escorada → cp = 0,85

cr = MSd/MRd = 311,9/607,7 = 0,513 < 0,7 → adota-se cr = 0,70 (MRd da seção 12.3)

4. Parcela cp·cr²·η0

cp·cr²·η0 = 0,85 × 0,70² × 0,520 = 0,85 × 0,49 × 0,520 = 0,217

5. Limite inferior (equação 11.5)

ηlim = 0,4 × cr × (1 + 0,8·ρ) = 0,4 × 0,70 × (1 + 0,8 × 0) = 0,280

6. Grau de interação mínimo

ηi = máx(0,217; 0,280) = 0,280 ≤ 1,0 (governa ηlim)

Pinos mínimos por meio vão: ηi·Fhd/QRd = 0,280 × 2 088,8/70,6 = 584,9/70,6 = 8,3 → 9 pinos

η = 0,54 ≥ ηi = 0,28: atende. Foram adotados 16 pinos por meio vão, contra 9 necessários.

Para comparação, a edição de 2008 usava, para perfis de mesas iguais, η ≥ 1 − E/(578·fy)·(0,75 − 0,03·Le), com mínimo de 0,40. A nova expressão incorpora a assimetria do perfil, o tipo de construção e a utilização da viga.

12Momento fletor resistente

12.1Distribuição plástica de tensões

Com alma compacta, o momento resistente vem da seção mista totalmente plastificada (ABNT, 2024, item L.2.3.1.1 e Figuras L.5 e L.6). As hipóteses são simples:

  • o concreto comprimido trabalha com tensão uniforme 0,85·ηc·fcd, em uma altura a medida a partir do topo da laje;
  • o concreto tracionado é desprezado, porque o concreto fissura com tensões de tração baixas e, depois de fissurado, não transmite tração (veja o quadro da seção 8.1);
  • o aço trabalha com fyd, tracionado abaixo da sua linha neutra plástica e comprimido acima dela;
  • o equilíbrio de forças é sempre Ccd + Cad = Tad, em que Ccd é a compressão no concreto, Cad a compressão no aço e Tad a tração no aço.

Conforme a relação entre as resistências dos conectores, da laje e do perfil, a linha neutra plástica pode estar em três posições (Figura 14).

Figura 14 – Distribuição plástica de tensões nos três casos de posição da linha neutra
Distribuição plástica de tensões nos três casos, cada um com a seção, o diagrama de tensões, as resultantes Ccd, Cad e Tad, os braços de alavanca, as condições de ocorrência e as equações: (a) linha neutra na laje; (b) linha neutra no perfil com interação completa; (c) interação parcial com duas linhas neutras, com os valores do exemplo

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.2.3.1.1.1 e Figuras L.5 e L.6.

  • (a) Linha neutra na laje: ΣQRd ≥ Aa·fyd e 0,85·ηc·fcd·b·tc ≥ Aa·fyd. O perfil inteiro fica tracionado.
  • (b) Linha neutra no perfil, interação completa: ΣQRd ≥ 0,85·ηc·fcd·b·tc e Aa·fyd ≥ 0,85·ηc·fcd·b·tc. A laje inteira comprimida não basta para equilibrar o perfil, e parte dele fica comprimida.
  • (c) Interação parcial: ΣQRd é menor que as duas resistências. A força na laje fica limitada ao que os conectores transmitem, Ccd = ΣQRd, e surgem duas linhas neutras, uma na laje e outra no perfil.

12.2Equações do momento resistente

As equações a seguir são as do item L.2.3.1.1.1 da NBR 8800:2024. Em todas, tc é a espessura de concreto considerada (altura total na laje maciça, espessura acima da fôrma na laje mista) e hF é a altura da fôrma, nula na laje maciça. O coeficiente βvm vale 1,00 em vigas biapoiadas e contínuas; em semicontínuas, varia de 0,85 a 0,95 conforme a capacidade de rotação da ligação (Anexo O).

Caso (a), linha neutra na laje

Tad = Aa·fyd  ;  a = Tad / (0,85·ηc·fcd·b)(12.1)
MRd = βvm·Tad·(d1 + hF + tc − a/2)(12.2)

em que d1 é a distância do centroide do perfil à face superior do perfil. O braço de alavanca vai do centroide do perfil ao centro do bloco comprimido.

Caso (b), linha neutra no perfil com interação completa

Ccd = 0,85·ηc·fcd·b·tc  ;  Cad = ½·(Aa·fyd − Ccd)(12.3)
MRd = βvm·[ Cad·(d − yt − yc) + Ccd·(tc/2 + hF + d − yt) ](12.4)

Atenção ao texto da norma · equação (12.4)

No item L.2.3.1.1.1-b da NBR 8800:2024, o primeiro termo dessa expressão aparece impresso como ΣQRd·(d − yt − yc), e não como Cad·(d − yt − yc). Pelo equilíbrio da seção, o termo correto é Cad, e é assim que este texto e a planilha calculam. Três motivos:

  1. É o momento de Cad. MRd é a soma dos momentos das forças de compressão em relação à resultante de tração Tad. As compressões na seção são duas: Ccd, no centro da laje, e Cad, no centroide da parte comprimida do perfil, a yc do topo. A distância d − yt − yc é exatamente o braço de Cad (Figura 14b).
  2. ΣQRd não é uma força que atua na seção no caso (b). Com interação completa, os conectores transmitem só Ccd, e ΣQRd ≥ Ccd é apenas a capacidade deles. Com ΣQRd na fórmula, bastaria colocar mais conectores para MRd crescer sem limite, o que é fisicamente impossível: com interação completa, mais conectores não aumentam a resistência.
  3. Coerência com o caso (c) e com a edição anterior. No caso (c), equação (12.6), a própria norma escreve Cad no mesmo termo, e a edição de 2008 usava Cad também no caso (b) (ABNT, 2008, item O.2.3.1.1.1-b).

Como ΣQRd e Cad são, em geral, valores bem diferentes, usar o texto impresso levaria a um momento resistente errado, e contra a segurança sempre que ΣQRd for maior que Cad. Na dúvida, confira a errata mais recente da norma no catálogo da ABNT.

Caso (c), interação parcial

Ccd = ΣQRd  ;  a = Ccd / (0,85·ηc·fcd·b)  ;  Cad como em (12.3)(12.5)
MRd = βvm·[ Cad·(d − yt − yc) + Ccd·(tc − a/2 + hF + d − yt) ](12.6)

Nos casos (b) e (c), o momento é tomado em relação à resultante de tração Tad, cujo centroide fica a yt da face inferior do perfil. A força no aço comprimido, com centroide a yc do topo do perfil, tem braço d − yt − yc. A expressão de Cad vem das duas equações de equilíbrio: Ccd + Cad = Tad e Cad + Tad = Aa·fyd. A diferença entre (b) e (c) está apenas na força e na altura do bloco de concreto: em (b) a laje inteira está comprimida (a = tc); em (c), Ccd = ΣQRd e a < tc.

Para localizar a linha neutra dentro do perfil: se a compressão Cad cabe na mesa superior, ela está na mesa; caso contrário, está na alma.

Mesa (Cad ≤ Aaf·fyd):   yp = Cad / (Aaf·fyd) · tf(12.7)
Alma:   yp = tf + hw·(Cad − Aaf·fyd) / (Aaw·fyd)(12.8)

Aaf é a área da mesa superior; Aaw = hw·tw, a área da alma; yp é medido do topo do perfil.

12.3Momento resistente do exemplo

Exemplo · momento fletor resistente (kN e cm)

Dados: d = 45,0 cm; bf = 15,2 cm; tf = 1,08 cm; Aa = 66,6 cm²; fyd = 31,36 kN/cm²; fcd = 2,143 kN/cm²; ηc = 1,0; b = 225 cm; tc = 6,5 cm; hF = 7,5 cm; ΣQRd = 1 129,6 kN; βvm = 1,00 (viga biapoiada).

1. Qual dos três casos

Perfil: Aa·fyd = 66,6 × 31,36 = 2 088,8 kN · laje: 0,85·ηc·fcd·b·tc = 2 663,8 kN (seção 11.1)

ΣQRd = 1 129,6 kN é menor que as duas → caso (c), interação parcial (Figura 14c)

2. Compressão no concreto

Ccd = ΣQRd = 1 129,6 kN

a = Ccd/(0,85·ηc·fcd·b) = 1 129,6/(0,85 × 1,0 × 2,143 × 225) = 1 129,6/409,8 = 2,76 cm ≤ tc = 6,5 cm → a linha neutra da laje fica dentro da capa

3. Forças no perfil (equilíbrio)

Ccd + Cad = Tad e Cad + Tad = Aa·fyd → Cad = ½·(Aa·fyd − Ccd)

Cad = ½ × (2 088,8 − 1 129,6) = ½ × 959,2 = 479,6 kN

Tad = Ccd + Cad = 1 129,6 + 479,6 = 1 609,2 kN (conferência: 479,6 + 1 609,2 = 2 088,8 kN)

4. Posição da linha neutra no perfil

Mesa superior inteira: Aaf·fyd = bf·tf·fyd = 15,2 × 1,08 × 31,36 = 16,42 × 31,36 = 514,9 kN ≥ Cad = 479,6 kN → LNP na mesa (equação 12.7)

yp = Cad/(Aaf·fyd)·tf = 479,6/514,9 × 1,08 = 0,931 × 1,08 = 1,006 cm

5. Centroides das partes comprimida e tracionada

Parte comprimida: retângulo de 15,2 × 1,006 cm → Ac = 15,29 cm²; yc = yp/2 = 0,503 cm (medido do topo)

Parte tracionada: At = Aa − Ac = 66,6 − 15,29 = 51,31 cm²

Momento estático em relação à base: perfil inteiro, 66,6 × 22,5 = 1 498,5 cm³; parte comprimida, 15,29 × (45,0 − 0,503) = 680,4 cm³

yt = (1 498,5 − 680,4)/51,31 = 818,1/51,31 = 15,94 cm (medido da base)

6. Braços de alavanca, em relação a Tad

De Cad: d − yt − yc = 45,0 − 15,94 − 0,503 = 28,55 cm

De Ccd: tc − a/2 + hF + d − yt = 6,5 − 1,378 + 7,5 + 45,0 − 15,94 = 41,68 cm

7. Momento resistente (equação 12.6)

MRd = βvm·[Cad·28,55 + Ccd·41,68] = 1,00 × [479,6 × 28,55 + 1 129,6 × 41,68]

    = 13 694 + 47 080 = 60 774 kN·cm = 607,7 kN·m

8. Verificação

MSd = 311,9 kN·m ≤ MRd = 607,7 kN·m. Atende: 311,9/607,7 = 0,51, ou seja, 51% de utilização. O perfil isolado resistiria 343,7 kN·m (seção 9.2): a ação mista aumenta a resistência em 77%.

Vale notar a parcela de cada material: 47 080/60 774 = 77% do momento resistente vem do binário entre a compressão no concreto e a tração no aço, que tem um braço de alavanca de 41,7 cm. Com interação completa (30 pinos por meio vão), o perfil inteiro ficaria tracionado e a linha neutra subiria para dentro da laje, caso (a).

12.4Alma semicompacta: verificação por tensões

Todo o cálculo plástico das seções 12.1 a 12.3 parte de uma hipótese: a alma do perfil aguenta, sem flambar, as tensões de compressão que aparecem quando a seção plastifica. Isso só é garantido quando a alma é compacta, isto é, quando h/tw ≤ 3,76·√(E/fy). Se a alma for mais fina, ela pode sofrer flambagem local antes de a seção inteira escoar, e o momento de plastificação deixa de ser alcançável. A norma então troca o critério: em vez da resistência plástica, o limite passa a ser o início do escoamento, verificado com tensões elásticas (ABNT, 2024, item L.2.3.1.2). É a mesma lógica da especificação norte-americana, que adota o primeiro escoamento como limite para almas mais esbeltas (AISC, 2016, Comentário I3.2a).

Tabela 12 – Classificação da alma para momento positivo em viga mista (aço com fy = 345 MPa)

AlmaLimite de h/twfy = 345 MPaProcedimento
Compactah/tw ≤ 3,76·√(E/fy)≤ 90,5plástico (12.1 a 12.3)
Semicompacta3,76·√(E/fy) < h/tw ≤ 5,70·√(E/fy)90,5 a 137,2elástico, por tensões (12.4)

Fonte: ABNT NBR 8800:2024, L.2.3.1.1 e L.2.3.1.2. Limites com E = 200 000 MPa: √(200 000/345) = 24,08.

Na prática, quase só perfis soldados caem nesse caso. Os perfis laminados W são fabricados com almas relativamente grossas para a sua altura. Na tabela de perfis W da Gerdau, o maior valor de h/tw é o do W410x38,8: d′/tw = 357/6,4 = 55,8, bem abaixo de 90,5. O W460x52,0 do exemplo tem 53,2. Mesmo com aço de fy = 450 MPa, cujo limite cai para 3,76 × √(200 000/450) = 79,3, todos continuam compactos (Gerdau, tabela de bitolas). Almas semicompactas aparecem em perfis soldados, como as séries VS e CVS ou perfis feitos sob medida, em que o projetista escolhe a espessura da alma e tende a usar chapas finas em vigas altas para economizar aço. O VS 1000x140, por exemplo, tem alma de 975 × 8 mm: h/tw = 975/8 = 121,9, semicompacta.

A verificação segue quatro passos:

  1. Montar a seção homogeneizada (seção 14.1), dividindo a largura efetiva da laje por αE. Se a fluência for desfavorável, para as ações permanentes usa-se 3·αE, como nas flechas.
  2. Calcular os módulos resistentes elásticos da seção homogeneizada: (Wtr)i, em relação à face inferior do perfil, e (Wtr)s, em relação à face superior da laje.
  3. Calcular as tensões com o momento de cálculo MSd, da combinação última normal, e comparar com as resistências de cálculo:
σtd = MSd / (Wtr)i ≤ fyd   ;   σcd = MSd / [αE·(Wtr)s] ≤ 0,85·fcd(12.9)

σtd é a tensão de tração na mesa inferior do perfil e σcd, a tensão de compressão na face superior da laje. A divisão por αE converte a tensão “em aço” da seção homogeneizada na tensão real do concreto.

  1. Com interação parcial, a seção não trabalha como se fosse perfeitamente ligada, e (Wtr)i é substituído pelo módulo efetivo, que interpola entre o perfil isolado e a seção com interação completa:
Wef = Wa + √(ΣQRd/Fhd)·[(Wtr)i − Wa](12.10)

Em construção não escorada, o perfil chega à fase 2 já tensionado, e as tensões das duas fases se somam na mesa inferior. Para alma semicompacta, essa soma é feita com combinações últimas e comparada com fyd (ABNT, 2024, item L.2.3.2-c):

MGa,Sd/Wa + ML,Sd/Wef ≤ fyd(12.11)

É a mesma estrutura da verificação em serviço da seção 9.1, equação (9.1), mas com momentos de cálculo e fyd no lugar de momentos nominais e fy. Para alma compacta vale a verificação em serviço; para alma semicompacta, esta, que é de estado-limite último.

Exemplo ilustrativo · se a alma da V1 fosse semicompacta

A V1 tem alma compacta e não precisa desta verificação. O cálculo abaixo usa os números dela só para mostrar o procedimento e comparar com o resultado plástico. Unidades: kN e cm.

1. Momentos de cálculo de cada fase (combinação normal, seção 7.4)

Antes da cura, g1: 1,35 × 7,18 + 1,25 × 0,77 = 10,66 kN/m → MGa,Sd = 10,66 × 9,00²/8 = 107,9 kN·m

Depois, g2: 1,50 × 4,34 = 6,51 kN/m → 65,9 kN·m · q: 1,50 × 9,10 = 13,65 kN/m → 138,2 kN·m

Conferência: 107,9 + 65,9 + 138,2 = 312,0 kN·m ≈ MSd = 311,9 kN·m

2. Tensão na mesa inferior (equação 12.11)

Fase 1, perfil isolado: 10 790/949,8 = 11,36 kN/cm² = 113,6 MPa

Fase 2, g2 com Wef de longa duração: 6 590/1 344 = 4,90 kN/cm² = 49,0 MPa

Fase 2, q com Wef de curta duração: 13 820/1 446 = 9,56 kN/cm² = 95,6 MPa

σtd = 113,6 + 49,0 + 95,6 = 258,2 MPa ≤ fyd = 345/1,10 = 313,6 MPa → 82%

3. Tensão no topo da laje (só a fase 2 comprime o concreto)

Topo da laje a 45,0 + 7,5 + 6,5 = 59,0 cm da base

q, curta duração: LN a 47,1 cm → (Wtr)s = 76 609/(59,0 − 47,1) = 6 459 cm³ → σ = 13 820/(7,67 × 6 459) = 0,279 kN/cm² = 2,8 MPa

g2, longa duração: LN a 38,7 cm → (Wtr)s = 57 546/(59,0 − 38,7) = 2 840 cm³ → σ = 6 590/(23,0 × 2 840) = 0,101 kN/cm² = 1,0 MPa

σcd = 2,8 + 1,0 = 3,8 MPa ≤ 0,85·fcd = 0,85 × 21,4 = 18,2 MPa → 21%

Pelo critério elástico, a V1 estaria com 82% de utilização; pelo plástico (seção 12.3), com 51%. A diferença mostra quanto se perde quando a alma não permite plastificar a seção.

Essa comparação explica por que, em perfis soldados, vale a pena checar se uma alma um pouco mais grossa não deixa a seção compacta: o ganho de resistência pode compensar o aço a mais. O procedimento do Anexo L cobre almas até 5,70·√(E/fy); acima disso, a alma é esbelta e a viga mista não é tratada por esse anexo.

Caso testado na planilha

Um VS 1000x140 com vão de 15 m, vigas espaçadas de 3,00 m e um pino a cada três nervuras tem h/tw = 121,9 > 90,5: regime elástico. A flexão atende, com σtd = 148 MPa ≤ 314 MPa e σcd = 3,2 MPa. Mas η = 0,18 < ηi = 0,29: há 9 pinos por meio vão, e o mínimo é 15. Faltam conectores. É um bom lembrete de que a viga precisa atender a todas as verificações, não só ao momento.

13Força cortante

Em vigas mistas de alma cheia, a força cortante resistente de cálculo considera apenas o perfil de aço, conforme a seção 5.4.3 da norma (ABNT, 2024, item L.3.1). Para seções I fletidas em torno do eixo de maior inércia (ABNT, 2024, itens 5.4.3.1.1 e 5.4.3.1.2):

λ = h/tw  ;  λp = 1,10·√(kv·E/fy)  ;  λr = 1,37·√(kv·E/fy)(13.1)
Vpl = 0,60·Aw·fy,  com Aw = d·tw(13.2)
λ ≤ λp: VRd = Vpl/γa1  ;  λp < λ ≤ λr: VRd = (λp/λ)·Vpl/γa1  ;  λ > λr: VRd = 1,24·(λp/λ)²·Vpl/γa1(13.3)

kv = 5,34 para almas sem enrijecedores transversais ou com a/h > 3; com enrijecedores, kv = 5,0 + 5/(a/h)². Na edição de 2008, sem enrijecedores, usava-se 5,0.

Exemplo · força cortante

W460x52,0: d = 450 mm; tw = 7,6 mm; h = d′ = 404 mm (altura plana da alma, sem os raios de concordância). Alma sem enrijecedores: kv = 5,34. Unidades: kN e cm.

1. Esbeltez da alma

λ = h/tw = 404/7,6 = 53,2

kv·E/fy = 5,34 × 200 000/345 = 1 068 000/345 = 3 095,7 → √3 095,7 = 55,64

λp = 1,10 × 55,64 = 61,2 · λr = 1,37 × 55,64 = 76,2

λ = 53,2 ≤ λp = 61,2 → a alma escoa por cisalhamento antes de flambar: vale Vpl

2. Força cortante de plastificação

Aw = d·tw = 45,0 × 0,76 = 34,2 cm²

Vpl = 0,60·Aw·fy = 0,60 × 34,2 × 34,5 = 20,52 × 34,5 = 707,9 kN

3. Resistência de cálculo

VRd = Vpl/γa1 = 707,9/1,10 = 643,6 kN

4. Solicitações e verificação

Em serviço (combinação normal): VSd = qd·L/2 = 30,81 × 9,00/2 = 138,6 kN → 138,6/643,6 = 0,22

Na concretagem (combinação de construção): VSd,c = qd,c·L/2 = 13,49 × 9,00/2 = 60,7 kN → 60,7/643,6 = 0,09

VSd = 138,6 kN ≤ VRd = 643,6 kN. Atende, com 22% de utilização.

Em vigas mistas biapoiadas com carga distribuída, o cortante raramente governa. Ele passa a importar com cargas concentradas próximas aos apoios ou com perfis de alma muito fina. A planilha também confere o cortante na fase de construção.

14Estados-limite de serviço

Uma viga mista que resiste bem no estado-limite último ainda pode deformar ou vibrar demais. Em vigas mistas de piso, as verificações de serviço frequentemente governam o dimensionamento: a flecha, por causa da fluência e da retração do concreto e da fase não escorada; e a vibração, porque os pisos mistos são leves e têm pouco amortecimento.

14.1Seção homogeneizada e rigidez efetiva

Para calcular deslocamentos, as propriedades da seção mista são obtidas por homogeneização: a largura efetiva da laje é dividida pela razão modular αE = E/Ec, transformando o concreto em uma área equivalente de aço. Despreza-se o concreto tracionado e admite-se distribuição linear de deformações (ABNT, 2024, item L.1.2.1). A Figura 15 mostra a transformação.

Figura 15 – Seção real e seções homogeneizadas de curta e longa duração do exemplo
(a) Seção real com laje de 2 250 mm de largura efetiva, capa de 65 mm e nervuras desprezadas sobre o W460x52,0. (b) Curta duração: largura homogeneizada de 293 mm, linha neutra a 47,1 cm da base, Itr = 76 609 cm4. (c) Longa duração: largura de 98 mm, linha neutra a 38,7 cm da base, Itr = 57 546 cm4. Diagramas lineares de deformação e quadro com Ief e Wef

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, L.1.2.1 e L.1.2.2. Seções homogeneizadas em escala.

Conceitos de concreto armado · fissuração, fluência e retração

Fissuração. Quando a tensão de tração no concreto passa da sua resistência à tração, da ordem de 10% da resistência à compressão, ele fissura: abrem-se trincas finas, e a região fissurada deixa de transmitir tração. Na viga mista biapoiada a laje fica comprimida, por isso o concreto abaixo da linha neutra, que seria tracionado, é desprezado nos cálculos. Na verificação de vibração, em que as deformações são muito pequenas, a norma permite considerar o concreto não fissurado (ABNT, 2024, Anexo I).

Fluência. Sob uma carga mantida, o concreto continua se deformando ao longo de meses e anos, mesmo sem aumento da carga. A deformação final pode chegar a duas ou três vezes a deformação imediata. É um fenômeno análogo à fluência dos polímeros, mas que ocorre no concreto em temperatura ambiente e com tensões de serviço. Para as cargas permanentes, o concreto se comporta como se fosse menos rígido, e é isso que o fator 3 aplicado à razão modular representa.

Retração. Mesmo sem nenhuma carga, o concreto encurta à medida que perde água e que o cimento reage. Na viga mista, os conectores impedem a laje de encurtar livremente sobre o perfil, e esse encurtamento impedido faz a viga fletir: é a flecha por retração, calculada na seção 14.3. A retração também é a principal causa de fissuras na superfície das lajes, controladas pela tela soldada.

Os efeitos de longa duração, fluência e retração, devem ser considerados conforme a ABNT NBR 6118. Simplificadamente, a norma permite multiplicar a razão modular por 3 para as ações permanentes e para os valores quase permanentes das ações variáveis (ABNT, 2024, item L.1.2.1). Isso reduz a contribuição do concreto e, portanto, a rigidez da seção.

Com interação parcial, o escorregamento na interface também reduz a rigidez. Em regiões de momento positivo, usa-se o momento de inércia efetivo (ABNT, 2024, item L.1.2.2.1):

Ief = Ia + √(ΣQRd/Fhd)·(Itr − Ia)(14.1)

Ia é o momento de inércia do perfil de aço e Itr, o da seção homogeneizada com interação completa.

A especificação norte-americana usa a mesma expressão, chamada de inércia equivalente, e recomenda não aplicá-la quando a relação entre a força nos conectores e a força de compressão na laje for menor que 0,25. O comentário observa também que a redução adicional de 0,75, usada em edições antigas, foi abandonada (AISC, 2016, Comentário I3, equação C-I3-3).

Exemplo · seção homogeneizada

Unidades: cm. Perfil W460x52,0: Aa = 66,6 cm², Ia = 21 370 cm⁴, centroide a d/2 = 22,5 cm da base. Laje: b = 225 cm e tc = 6,5 cm acima da fôrma, com o centro a 45,0 + 7,5 + 6,5/2 = 55,75 cm da base; Ac = 225 × 6,5 = 1 462,5 cm². O concreto das nervuras é desprezado (Figura 15).

1. Razões modulares

αE = E/Ec = 200 000/26 072 = 7,67 (curta duração) · 3·αE = 23,0 (longa duração)

2. Curta duração: concreto transformado em aço

Largura equivalente: 225/7,67 = 29,33 cm → área equivalente: 1 462,5/7,67 = 190,65 cm²

Linha neutra (da base): y = (66,6 × 22,5 + 190,65 × 55,75)/(66,6 + 190,65) = (1 498,5 + 10 628,8)/257,25 = 47,14 cm

47,14 cm < 52,5 cm (base da capa) → a linha neutra fica abaixo da capa, e toda a capa está comprimida: a hipótese vale

Teorema dos eixos paralelos (Steiner):

    perfil: Ia + Aa·(47,14 − 22,5)² = 21 370 + 66,6 × 24,64² = 21 370 + 40 441

    laje: 29,33 × 6,5³/12 + 190,65 × (55,75 − 47,14)² = 671 + 14 127

    Itr = 21 370 + 40 441 + 671 + 14 127 = 76 609 cm⁴

3. Longa duração: mesmo cálculo com 3·αE = 23,0

Largura equivalente: 225/23,0 = 9,78 cm → área equivalente: 1 462,5/23,0 = 63,55 cm²

y = (1 498,5 + 63,55 × 55,75)/(66,6 + 63,55) = (1 498,5 + 3 542,9)/130,15 = 38,74 cm → dentro do perfil, 6,3 cm abaixo do topo

Itr = 21 370 + 66,6 × (38,74 − 22,5)² + 9,78 × 6,5³/12 + 63,55 × (55,75 − 38,74)² = 21 370 + 17 555 + 224 + 18 398 = 57 546 cm⁴

4. Interação parcial (equação 14.1)

√(ΣQRd/Fhd) = √(1 129,6/2 088,8) = √0,541 = 0,735

Ief,s = 21 370 + 0,735 × (76 609 − 21 370) = 21 370 + 0,735 × 55 239 = 61 992 cm⁴ (curta duração)

Ief,l = 21 370 + 0,735 × (57 546 − 21 370) = 21 370 + 0,735 × 36 176 = 47 973 cm⁴ (longa duração). A seção mista é 2,9 vezes mais rígida que o perfil isolado em curta duração e 2,2 vezes em longa duração.

A planilha recalcula a posição da linha neutra elástica e verifica se ela cai dentro da laje, caso em que só a parte comprimida do concreto participa da seção.

14.2As parcelas de flecha do Anexo B

O Anexo B da NBR 8800:2024 decompõe o deslocamento vertical de uma viga em parcelas (Figura 16), definidas no item B.3.1:

  • δ0, a contraflecha da viga;
  • δ1, o deslocamento das ações permanentes, sem efeitos de longa duração;
  • δ2, o deslocamento causado pelos efeitos de longa duração das ações permanentes;
  • δ3, o deslocamento das ações variáveis, incluindo, quando houver, os efeitos de longa duração dos seus valores quase permanentes;
  • δtot = δ1 + δ2 + δ3, o deslocamento total, e δmax = δtot − δ0, o deslocamento máximo descontada a contraflecha.
Figura 16 – Parcelas do deslocamento vertical da viga do exemplo
(a) Deformadas em escala da viga do exemplo: contraflecha de 15 mm e curvas após as permanentes (delta 1 = 18,9 mm), após fluência e retração (delta 2 = 5,4 mm) e após as variáveis (delta 3 = 3,2 mm), com delta total = 27,5 mm e delta máximo = 12,5 mm. (b) Barras com a composição da flecha, delta máximo comparado com L/350 = 25,7 mm e delta 2 + delta 3 da combinação rara = 12,4 mm

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, Anexo B, Figura B.1, e nos valores da seção 14.3.

Para vigas de piso, o limite é L/350. Se houver paredes de alvenaria solidarizadas à viga, o deslocamento também não pode passar de 15 mm (ABNT, 2024, Tabela B.1). A combinação depende do efeito que se quer controlar: δmax, que normalmente se relaciona ao aspecto da estrutura, usa a combinação quase permanente; quando o deslocamento pode afetar equipamentos, causar empoçamento ou danificar elementos não estruturais, usa-se a combinação frequente ou a rara (item B.2.4). Na maioria dos casos, quem causa danos a paredes e forros é a parcela δ2 + δ3 (item B.3.3). A contraflecha pode ser deduzida até o valor de δ1 (item B.3.2).

Na fábrica · como se dá a contraflecha a uma viga

A contraflecha é uma curvatura para cima dada à viga na fábrica, para compensar a flecha das cargas permanentes. Com ela, a viga fica aproximadamente reta depois de carregada. A NBR 8800 diz como considerá-la no cálculo, mas não regula como ela é feita: isso é um procedimento de fabricação. Os três processos mais usados são:

  1. A frio, em prensa de contraflechar. É o processo mais comum para perfis laminados, como os W. O perfil é apoiado em dois pontos, e uma prensa hidráulica aplica forças concentradas até que o aço escoe localmente. Ao retirar a carga, a deformação plástica fica, e a viga mantém a curvatura. O operador repete o ciclo, medindo a flecha, até chegar ao valor especificado.
  2. A quente, por aquecimento localizado. Com maçarico, aquecem-se regiões em forma de cunha na alma, com a base da cunha na mesa superior, e a própria mesa superior nesses trechos. O aço aquecido tenta se dilatar, é impedido pelo material frio em volta e, ao esfriar, encurta. Como o encurtamento acontece em cima, a viga se curva para cima. É usado em perfis grandes, em perfis soldados e para correções, com controle da temperatura para não alterar as propriedades do aço.
  3. Na própria fabricação do perfil soldado. Em perfis soldados, como os VS, a chapa da alma é cortada já com a borda curva, em máquina de corte por plasma ou oxicorte, antes da soldagem das mesas. As mesas acompanham o contorno da alma, e o perfil sai pronto, com a contraflecha desejada.

No projeto, indica-se o valor da contraflecha no meio do vão e a sua tolerância, e a viga deve ser montada com a curvatura para cima, por isso as peças contraflechadas costumam ser marcadas. Contraflecha demais também é problema: se a viga flete menos que o previsto, ela fica com a "barriga" para cima, e a laje, nivelada por cima, fica mais fina no meio do vão. Por isso costuma-se adotar um valor um pouco menor que a flecha calculada para o peso do concreto fresco. Contraflechas pequenas, como os 15 mm do exemplo, ficam perto do limite de precisão de muitos processos: confirme com o fabricante se o valor é viável.

14.3Flechas do exemplo

Todas as parcelas de carga vêm da fórmula clássica da flecha no meio do vão de uma viga biapoiada sob carga uniformemente distribuída, δ = 5·p·L⁴/(384·E·I). Como o vão e o aço são os mesmos em todas as parcelas, convém separar a parte constante:

δ = k·p / I,   com k = 5·L⁴ / (384·E)(14.2)

k reúne o que não muda de uma parcela para outra: o vão L e o módulo de elasticidade do aço E. Os números 5 e 384 vêm da integração da linha elástica para carga uniforme em viga biapoiada. No exemplo, com L = 900 cm e E = 20 000 kN/cm²: k = 5 × 900⁴/(384 × 20 000) = 5 × 6,561·10¹¹/7 680 000 = 427 148 cm³ (unidade de L⁴/E, em cm⁴ por kN/cm²).

p é a carga distribuída da parcela, em kN/cm (1 kN/m = 0,01 kN/cm), em valor característico, sem coeficientes de ponderação, porque flecha é estado-limite de serviço. Cada parcela usa só a carga que a provoca: g1 para o concreto fresco, g2 para o revestimento, ψ2·q para a parte quase permanente da sobrecarga, e assim por diante.

I é o momento de inércia da seção que resiste àquela carga, no instante em que ela é aplicada: Ia do perfil isolado para o que é aplicado antes da cura; Ief,s da seção mista de curta duração para o efeito imediato das cargas depois da cura; Ief,l de longa duração para o efeito final das cargas mantidas, que inclui a fluência.

O resultado sai em cm: kN/cm × cm⁴·kN⁻¹·cm² ÷ cm⁴ = cm.

Como δ é proporcional a p e inversamente proporcional a I, cada parcela pode ser calculada separadamente e somada, o que é válido enquanto o comportamento é elástico (seção 14.4). Na construção não escorada, o peso do concreto fresco atua sobre o perfil isolado, e só as cargas aplicadas depois da cura atuam sobre a seção mista. A fluência aparece como a diferença entre a flecha calculada com Ief,l e com Ief,s: k·p·(1/Ief,l − 1/Ief,s).

A retração do concreto precisa de atenção à parte. A NBR 8800 não traz uma expressão para a flecha por retração no método simplificado, e por isso usa-se o modelo do Comentário da especificação norte-americana. A laje, ao retrair, é impedida pelos conectores de encurtar livremente, o que equivale a aplicar na seção mista uma força Psh excêntrica em relação à linha neutra, isto é, momentos nas extremidades da viga (AISC, 2016, Comentário I3, Figura C-I3.2):

Psh = εsh·Ec,ef·Ac  ;  δsh = Psh·esh·L² / (8·E·Ief,l)(14.3)

εsh é a deformação de retração restringida, 0,0002 na falta de dados (AISC, 2016, Comentário I3.2); Ec,ef = Ec/3, coerente com o fator 3·αE da NBR; Ac = b·tc; esh é a distância do centro da laje à linha neutra da seção de longa duração.

Tabela 13 – Parcelas de flecha do exemplo

ParcelaExpressão e significadomm
δg1k·g1/Ia: perfil isolado sob o concreto fresco15,9
δ1δg1 + k·g2/Ief,s18,9
δflk·g2·(1/Ief,l − 1/Ief,s): fluência das permanentes0,9
δshPsh·esh·L²/(8·E·Ief,l): retração4,6
δ2δfl + δsh5,4
δ3ψ2·q = 0,4 × 9,10 kN/m na seção de curta duração, mais a sua fluência (quase permanente)3,2
δtotδ1 + δ2 + δ327,5

Fonte: ABNT NBR 8800:2024, Anexo B e L.1.2; AISC 360-16, Comentário I3; planilha didática, Memorial 11. As parcelas são somadas sem arredondamento.

Exemplo · flechas

Unidades: kN e cm. k = 427 148 cm³ (equação 14.2). Cargas características (seção 7): g1 = 7,94 kN/m = 0,0794 kN/cm; g2 = 4,34 kN/m = 0,0434 kN/cm; q = 9,10 kN/m = 0,0910 kN/cm; ψ2 = 0,4 (escritórios), logo ψ2·q = 0,0364 kN/cm.

1. δ1: permanentes, efeito imediato

δg1 = k·g1/Ia = 427 148 × 0,0794/21 370 = 33 916/21 370 = 1,587 cm (perfil isolado)

δg2 = k·g2/Ief,s = 427 148 × 0,0434/61 992 = 18 538/61 992 = 0,299 cm (seção mista)

δ1 = 1,587 + 0,299 = 1,886 cm = 18,9 mm

2. δ2: efeitos de longa duração das permanentes

Fluência de g2: δfl = 18 538 × (1/47 973 − 1/61 992) = 18 538 × (20,845 − 16,131)·10⁻⁶ = 18 538 × 4,714·10⁻⁶ = 0,087 cm

Retração: Ec,ef = 2 607/3 = 869 kN/cm²; Ac = 225 × 6,5 = 1 462,5 cm²

    Psh = εsh·Ec,ef·Ac = 0,0002 × 869 × 1 462,5 = 254 kN

    esh = 55,75 − 38,74 = 17,0 cm (centro da laje até a linha neutra de longa duração)

    δsh = 254 × 17,0 × 900²/(8 × 20 000 × 47 973) = 3,50·10⁹/7,68·10⁹ = 0,456 cm

δ2 = 0,087 + 0,456 = 0,543 cm = 5,4 mm

3. δ3: variáveis (combinação quase permanente)

Imediata mais fluência da parte quase permanente equivale a usar Ief,l: δ3 = k·ψ2·q/Ief,l = 427 148 × 0,0364/47 973 = 15 548/47 973 = 0,324 cm = 3,2 mm

4. Total e contraflecha

δtot = δ1 + δ2 + δ3 = 1,886 + 0,543 + 0,324 = 2,753 cm = 27,5 mm

Contraflecha δ0 = 15 mm ≤ δ1 = 18,9 mm (B.3.2)

δmax = δtot − δ0 = 27,5 − 15 = 12,5 mm ≤ L/350 = 9 000/350 = 25,7 mm. Atende, com 49%.

5. Paredes e forros (combinação rara)

δ3,rara = k·q/Ief,s + fluência da parte quase permanente = 427 148 × 0,0910/61 992 + 15 548 × 4,714·10⁻⁶ = 0,627 + 0,073 = 0,700 cm = 7,0 mm

δ2 + δ3,rara = 5,4 + 7,0 = 12,4 mm ≤ 25,7 mm. Atende.

Sem a contraflecha, δmax seria de 27,5 mm e a viga não atenderia. As alternativas seriam um perfil mais alto, mais conectores (que aumentam Ief) ou o escoramento da viga, que elimina a parcela δg1 do perfil isolado. Repare também que mais da metade da flecha total vem da fase de construção: essa é a principal desvantagem da construção não escorada. A planilha sugere a contraflecha como múltiplo de 5 mm da flecha δg1.

14.4Tensão em serviço na mesa inferior

As flechas foram calculadas por análise elástica, que só vale se o aço não escoar em serviço (ABNT, 2024, item L.1.2.3). Em vigas biapoiadas não escoradas com alma compacta, a norma exige, na mesa inferior da seção mais solicitada (ABNT, 2024, item L.2.3.2-b):

σ = MGa,S/Wa + ML,S/Wef ≤ fy(14.4)

MGa,S e ML,S são os momentos nominais da combinação rara de serviço devidos às ações aplicadas antes e depois de o concreto atingir 0,75·fck; Wa é o módulo resistente elástico do perfil e Wef, o da seção mista com interação parcial, em relação à face inferior. A sobrecarga de construção não entra em MGa,S, porque é retirada antes de a viga passar a trabalhar como mista (ver o quadro da seção 9.1).

Exemplo · tensão em serviço

Unidades: kN e cm. Alma compacta (h/tw = 53,2 ≤ 90,5) → item L.2.3.2-b: momentos nominais da combinação rara e limite fy. Como há uma só ação variável, q, a combinação rara é g + q, sem coeficientes.

1. Momentos de cada fase

Antes da cura: MGa,S = g1·L²/8 = 7,94 × 9,00²/8 = 7,94 × 10,125 = 80,4 kN·m = 8 040 kN·cm (sem a sobrecarga de construção)

Depois da cura, g2: 4,34 × 10,125 = 43,9 kN·m = 4 394 kN·cm · q: 9,10 × 10,125 = 92,1 kN·m = 9 214 kN·cm

2. Módulos resistentes em relação à face inferior

Perfil isolado: Wa = 949,8 cm³ (catálogo)

Seção homogeneizada (seção 14.1): (Wtr)i = Itr/yLN → curta: 76 609/47,14 = 1 625 cm³ · longa: 57 546/38,74 = 1 485 cm³

Wef = Wa + √η·[(Wtr)i − Wa] → curta: 949,8 + 0,735 × (1 625 − 949,8) = 1 446 cm³ · longa: 949,8 + 0,735 × (1 485 − 949,8) = 1 344 cm³

3. Tensões na mesa inferior

σ1 = MGa,S/Wa = 8 040/949,8 = 8,47 kN/cm² = 84,7 MPa (perfil isolado)

σ2,g2 = 4 394/1 344 = 3,27 kN/cm² = 32,7 MPa (permanente: Wef de longa duração)

σ2,q = 9 214/1 446 = 6,37 kN/cm² = 63,7 MPa (variável: Wef de curta duração)

σ = 84,7 + 32,7 + 63,7 = 181,1 MPa ≤ fy = 345 MPa. Atende: 181,1/345 = 0,52, ou seja, 52%.

A planilha separa as parcelas da fase 2: g2 com o Wef de longa duração, porque é carga permanente sujeita à fluência, e q com o Wef de curta duração. Quase metade da tensão vem da fase de construção, quando o perfil trabalha sozinho.

14.5Vibração do piso pelo caminhar de pessoas

O Anexo I é novo na edição 2024. A edição de 2008 tratava o tema no seu Anexo L, de forma bem mais simples: a frequência natural do piso nunca podia ser inferior a 3 Hz e, na avaliação simplificada, pisos em que as pessoas caminham deviam ter frequência de pelo menos 4 Hz, condição considerada atendida se a flecha das permanentes (sem a parcela dependente do tempo) mais as variáveis, na combinação frequente e com as vigas biapoiadas, não passasse de 20 mm (ABNT, 2008, itens L.1.2 e L.3.2). Não havia cálculo de aceleração. O método simplificado se aplica a pisos regulares com carga distribuída, excitados pelo caminhar de pessoas, com frequência natural entre 3 Hz e 9 Hz. Abaixo de 3 Hz, exige-se uma avaliação mais precisa (ABNT, 2024, itens I.2 e I.3).

Figura 17 – Planta do piso, modo de vibração A e roteiro do método simplificado com os valores da V1
(a) Planta do piso com vigas principais e secundárias, a viga V1 destacada, a faixa colaborante Bb de 8,30 m, Lb = 9,00 m e b = 2,80 m. (b) Modo A: viga secundária biapoiada nas principais vibrando sob o caminhar de uma pessoa, P0 = 750 N, e hipóteses do método. (c) Roteiro em quatro passos com os valores: delta 7,18 mm e f0 6,72 Hz; Bb 8,30 m e M 17 928 kg; beta 0,030, ap 0,037 m/s2 e aw,rms 0,049 m/s2; aceitação pelo ap e não aceitação pelo R = 9,9

Fonte: elaborado pelo autor, com base na ABNT NBR 8800:2024, Anexo I, Figuras I.1 e I.2.

O roteiro tem quatro passos:

  1. Frequência fundamental, obtida do deslocamento δ do piso sob o próprio peso, em milímetros (itens I.2.2 e Tabela I.1):
f0 = 18 / √δ(14.5)
  1. Massa modal, com a largura colaborante Bb limitada a 2/3 da largura do piso e kb = 2,0 para vigas internas (item I.2.3):
M = 0,5·m·Lb·Bb  ;  Bb = kb·Lb·(Ds/Db)0,25(14.6)

m é a massa por área; Lb o vão da viga; Ds e Db as rigidezes à flexão da laje e da viga por unidade de largura.

  1. Resposta do piso, pela aceleração de pico ou pelo valor eficaz, a critério do responsável técnico (item I.2.4), com P0 = 750 N e β o coeficiente de amortecimento:
ap = 0,55·P0·e−0,35·f0 / (2·β·M)(14.7)
aw,rms = W·ζ·P0 / (2·√2·β·M)  ;  R = aw,rms / 0,005(14.8)
  1. Comparação com os limites da Tabela I.3, que dependem da ocupação.

As hipóteses do item I.1.7 são importantes: as vigas podem ser consideradas mistas mesmo que tenham sido calculadas como não mistas, o concreto é considerado não fissurado e usa-se um módulo de elasticidade dinâmico de 38 GPa. A massa é calculada com a combinação frequente e ψ1 = ψ2 = 0,1 (item I.1.5). A norma distingue dois modos de vibrar (Figura I.1): o modo A, controlado pelas vigas secundárias, e o modo B, controlado pelo conjunto de vigas principais e secundárias. O modo B depende dos dados da viga principal e fica fora deste exemplo.

Exemplo · vibração

Modo A, viga V1 interna (kb = 2,0). Unidades: N e mm, salvo indicação.

1. Massa por área (combinação frequente com ψ1 = 0,1, item I.1.5)

laje 2,56 + fôrma 0,09 + permanentes g2 (4,34/2,80) 1,55 + 0,1 × q (0,1 × 3,25) 0,33 + perfil (0,51/2,80) 0,18 = 4,71 kN/m²

m = 4 707/9,81 = 480 kg/m²

2. Inércia da viga para vibração (seção não fissurada, interação completa)

αE,din = 200/38 = 5,26 → largura equivalente 225/5,26 = 42,75 cm; área 1 462,5/5,26 = 277,9 cm²

Linha neutra: (1 498,5 + 277,9 × 55,75)/(66,6 + 277,9) = 16 990/344,5 = 49,32 cm da base

Ib = 21 370 + 66,6 × 26,82² + 42,75 × 6,5³/12 + 277,9 × 6,43² = 21 370 + 47 912 + 978 + 11 483 = 81 743 cm⁴ = 8,174·10⁸ mm⁴

Laje (nervuras perpendiculares): Is = 13,17·10⁶ mm⁴/m = 13 170 mm⁴/mm, inércia da laje mista homogeneizada, do catálogo

3. Deslocamento e frequência (Tabela I.1, modo A)

δ = m·g·b/(384·E)·(5·Lb⁴/Ib + b³/Is)

m·g = 480 × 9,81 = 4 709 N/m² = 4,709·10⁻³ N/mm² → m·g·b/(384·E) = 4,709·10⁻³ × 2 800/(384 × 200 000) = 1,717·10⁻⁷

5·Lb⁴/Ib = 5 × 9 000⁴/8,174·10⁸ = 4,013·10⁷ · b³/Is = 2 800³/13 170 = 1,667·10⁶

δ = 1,717·10⁻⁷ × (4,013·10⁷ + 0,167·10⁷) = 7,18 mm (96% vem da viga, 4% da laje)

f0 = 18/√δ = 18/√7,18 = 18/2,679 = 6,72 Hz → entre 3 e 9 Hz: o método simplificado se aplica

4. Massa modal (item I.2.3)

Ds/Db = Is/(Ib/b) = 13 170/(8,174·10⁸/2 800) = 13 170/291 940 = 0,0451 → 0,04510,25 = 0,461

Bb = kb·Lb·(Ds/Db)0,25 = 2,0 × 9,00 × 0,461 = 8,30 m ≤ 2/3 × 20 m (largura do piso) = 13,3 m

M = 0,5·m·Lb·Bb = 0,5 × 480 × 9,00 × 8,30 = 17 928 kg

5. Amortecimento (Tabela I.2)

β = 0,010 (sistema estrutural) + 0,010 (forro e instalações suspensos) + 0,010 (escritório convencional) = 0,030

6. Aceleração de pico (equação 14.7)

e−0,35 × 6,72 = e−2,352 = 0,0952 → numerador: 0,55 × 750 × 0,0952 = 39,26 N

denominador: 2 × 0,030 × 17 928 = 1 075,7 kg

ap = 39,26/1 075,7 = 0,0365 m/s² ≤ 0,050 m/s² (escritórios, Tabela I.3). Atende: 0,0365/0,050 = 0,73.

7. Valor eficaz (equação 14.8)

f0 = 6,72 Hz: W = 1,0 (entre 4 e 8 Hz) e ζ = 0,10 (acima de 5 Hz)

aw,rms = 1,0 × 0,10 × 750/(2 × √2 × 0,030 × 17 928) = 75/1 521 = 0,0493 m/s² → R = 0,0493/0,005 = 9,9

R = 9,9 > 8 (escritórios). Por esse critério, não atenderia.

Os dois critérios não são equivalentes, e neste exemplo levam a conclusões diferentes. A norma deixa a escolha ao responsável técnico. O resultado mostra que o piso está próximo do limite. Divisórias de piso a teto acrescentariam de 0,02 a 0,05 ao amortecimento, e com elas o piso atenderia aos dois critérios.

15Síntese do exemplo

Tabela 14 – Resumo das verificações da viga V1

VerificaçãoItemResultadoSituação
Perfil na concretagemL.2.3.2-a136,6 ≤ 343,7 kN·m (40%)Atende
Flexão da viga mistaL.2.3.1.1311,9 ≤ 607,7 kN·m (51%)Atende
Grau de interaçãoL.2.3.1.1.2η = 0,54 ≥ ηi = 0,28Atende
Força cortanteL.3.1 e 5.4.3138,6 ≤ 643,6 kN (22%)Atende
Conectores: geometria e espaçamentoL.4.1, L.4.3, L.4.4Ø19 × 125 mm, s = 274 mmAtende
Flecha máxima δmaxAnexo B12,5 ≤ 25,7 mm (49%)Atende
Flecha δ2 + δ3 (rara)B.3.312,4 ≤ 25,7 mm (48%)Atende
Tensão em serviçoL.2.3.2-b181,1 ≤ 345 MPa (52%)Atende
Vibração: f0 e apAnexo I6,72 Hz; 0,037 ≤ 0,050 m/s² (73%)Atende
Laje steel deckCatálogo MetformSem escoras; 4,80 ≤ 5,51 kN/m² (87%)Atende

Fonte: planilha didática, aba Resumo e Memorial 1 a 13, com os itens da ABNT NBR 8800:2024 indicados.

A viga W460x52,0 atende a todas as verificações com 32 pinos Ø19 × 125 mm, um por nervura, e contraflecha de 15 mm. As utilizações mostram onde está a folga. A flexão está em 51% e o cortante em 22%, mas o perfil não poderia ser reduzido por causa dos estados-limite de serviço: sem a contraflecha, a flecha máxima seria de 27,5 mm, acima do limite de 25,7 mm (107%); a vibração está em 73% pela aceleração de pico e não atende pelo fator de resposta R; e a laje usa 87% da carga sobreposta do catálogo. Esse é o comportamento típico de vigas mistas de piso: os estados-limite de serviço governam.

16O que mudou da edição 2008 para a 2024

Tabela 15 – Principais mudanças da NBR 8800 que afetam vigas mistas

TemaNBR 8800:2008NBR 8800:2024
Anexo de vigas mistasAnexo OAnexo L
Módulo do concretoEci = 5 600·√fck; Ec = Ecs = 0,85·Eci, ou seja, 4 760·√fck, sem efeito do agregado (4.5.3.1)Eci = αag·5 600·√fck; Ec = 0,85·Eci: entra o tipo de agregado (4.6.3.1)
Bloco de compressão do concreto0,85·fcd (O.2.3.1.1.1)0,85·ηc·fcd, ηc = (40/fck)1/3 ≤ 1, que reduz o bloco para fck > 40 MPa (L.1.3.4)
MRd, caso (b): LNP no perfilβvm·[Cad·(d − yt − yc) + Ccd·(tc/2 + hF + d − yt)] (O.2.3.1.1.1-b)Mesma expressão, mas o texto impresso traz ΣQRd no lugar de Cad no primeiro termo; ver o quadro da seção 12.2 (L.2.3.1.1.1-b)
Rp, pino soldado direto no perfil, sem fôrma1,00 (O.4.2.1.3-a)0,75 (L.4.2.1.3-a). Com steel deck perpendicular e emh ≥ 50 mm, 0,75 nas duas edições
Grau de interação mínimoMesas iguais: 1 − E/(578·fy)·(0,75 − 0,03·Le) ≥ 0,40 para Le ≤ 25 m e 1,0 acima. Mesas diferentes (Afi ≤ 3·Afs): 1 − E/(578·fy)·(0,30 − 0,015·Le) ≥ 0,40 para Le ≤ 20 m e 1,0 acima; interpolação entre os casos (O.2.3.1.1.2)ηi = cp·cr²·η0 ≥ ηlim = 0,4·cr·(1 + 0,8·ρ), com η0 = 1 − E/(580·fy)·[0,75 − 0,45·ρ − (0,030 − 0,015·ρ)·Le]: a assimetria entra de forma contínua, por ρ, e passam a contar o tipo de construção (cp) e a utilização da viga (cr) (L.2.3.1.1.2)
Cortante, alma sem enrijecedoreskv = 5,0 (5.4.3.1.1)kv = 5,34 (5.4.3.1.1)
Vibração de pisosAnexo L: f ≥ 3 Hz sempre; método simplificado por limite de flecha (20 mm para caminhar, 9 mm e 5 mm para atividades rítmicas), que garante 4, 6 e 8 HzAnexo I: f0 pela Tabela I.1, massa modal, amortecimento da Tabela I.2 e aceleração de pico ou valor eficaz comparados com a Tabela I.3

Fonte: ABNT NBR 8800:2008 e ABNT NBR 8800:2024, itens indicados. Nos itens da edição 2024, a numeração segue as remissões internas da norma.

Na prática, projetos e memoriais feitos pela edição de 2008 tendem a usar resistências de conector maiores, por causa do Rp = 1,00 para pinos soldados diretamente no perfil, e um grau de interação mínimo diferente. Ao comparar resultados com um projeto antigo, essas são as diferenças a procurar. A FLT de perfis isolados também teve as expressões reorganizadas (Tabela G.1 na edição de 2008, Tabela D.1 na de 2024): ao comparar com um cálculo antigo, confira as duas.

17Considerações finais e exercícios propostos

Cinco ideias resumem o capítulo:

  1. perfil, laje e conectores trabalham juntos, e o grau de interação define a resistência e a rigidez da viga;
  2. a força que os conectores precisam transmitir é Fhd = mín(Aa·fyd ; 0,85·ηc·fcd·b·tc), e o grau de interação η = ΣQRd/Fhd não pode ser menor que ηi;
  3. com alma compacta, o momento resistente vem da distribuição plástica de tensões, em um de três casos de posição da linha neutra;
  4. na construção não escorada, é preciso verificar o perfil isolado na concretagem e a tensão em serviço na mesa inferior;
  5. em pisos, as flechas e a vibração costumam governar o dimensionamento.

Ficam fora do escopo deste capítulo, e são bons temas para aprofundamento, as vigas contínuas e semicontínuas, com momento negativo, flambagem lateral com distorção e ligações mistas do Anexo O, a armadura de costura da laje (ABNT, 2024, item L.1.3.4), que é a armadura transversal colocada na laje sobre a viga para impedir que a laje se rompa por cisalhamento ao longo da linha dos conectores, onde a força transmitida pelos pinos se espalha pela largura efetiva, e o detalhamento das lajes alveolares e com pré-laje.

17.1Exercícios com a planilha

Ainda não tem a planilha? Baixe gratuitamente no início deste texto.

Cada exercício parte do exemplo original. Para cada um, anote qual verificação passa a governar e confira pelo menos uma conta à mão com o Memorial da planilha.

  1. Construção. Troque a laje para maciça de 120 mm, com comprimento destravado Lb = 9 m na concretagem. Observe a FLT do perfil isolado e discuta a necessidade de travamentos provisórios ou de escoramento.
  2. Escoramento. Mude o exemplo para construção escorada. Compare δmax, a tensão em serviço e o coeficiente cp do grau de interação mínimo.
  3. Conectores. Use dois pinos por nervura. Compare QRd (com Rg = 0,85), η, MRd e as flechas, e confira o espaçamento transversal mínimo de 4 diâmetros.
  4. Perfil. Teste o W410x46,1 no lugar do W460x52,0. Qual verificação falha primeiro, e por quê?
  5. Uso. Mude o uso para lojas e shopping centers. Veja a nova carga de uso de 4,0 kN/m², a dispensa da carga de divisórias e a verificação da laje pelo catálogo.
  6. Vibração. Some βdiv = 0,02 de divisórias de piso a teto. Recalcule ap e R e discuta o critério de aceitação.

Referências

  1. AMERICAN WELDING SOCIETY. AWS D1.1/D1.1M: Structural welding code – steel. Miami: AWS, 2020.
  2. AMERICAN INSTITUTE OF STEEL CONSTRUCTION. ANSI/AISC 360-16: Specification for structural steel buildings. Chicago: AISC, 2016.
  3. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6120: Ações para o cálculo de estruturas de edificações. Rio de Janeiro: ABNT, 2019.
  4. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 8800: Projeto de estruturas de aço e de estruturas mistas de aço e concreto de edificações. Rio de Janeiro: ABNT, 2008.
  5. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 8800: Projeto de estruturas de aço e de estruturas mistas de aço e concreto de edificações. Rio de Janeiro: ABNT, 2024.
  6. GERDAU. Perfis estruturais Gerdau: tabela de bitolas. [S.l.]: Gerdau, [s.d.].
  7. METFORM. Steel Deck: catálogo técnico de fôrmas de aço para lajes mistas MF-50 e MF-75. [S.l.]: Metform, [s.d.].
  8. MURRAY, T. M. et al. Vibrations of steel-framed structural systems due to human activity. 2. ed. Chicago: AISC, 2016. (Steel Design Guide 11).

Texto de apoio ao curso de estruturas metálicas da Lure Engenharia. Os números do exemplo podem ser conferidos na planilha didática Viga_Mista_NBR8800-2024.xlsx, que acompanha o curso. Este material não substitui a leitura das normas citadas, que devem ser consultadas em suas versões oficiais.

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Renato Carvalho

Renato Carvalho é Engenheiro Mecânico e fundador da Lure Engenharia e Treinamentos. Atua com projetos e análises estruturais, com foco em estruturas metálicas e Análise por Elementos Finitos (FEA), e compartilha esse conhecimento em treinamentos para engenheiros e estudantes.

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